Movendo a criação para a justiça

Mensagem pregada em 11 de setembro de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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7Vejo as tendas de Cusã em aflição;
os acampamentos da terra de Midiã tremem.
8Acaso, é contra os rios, SENHOR, que estás irado?
É contra os ribeiros a tua ira
ou contra o mar, o teu furor,
já que andas montado nos teus cavalos,
nos teus carros de vitória?
9Tiras a descoberto o teu arco,
e farta está a tua aljava de flechas.
Tu fendes a terra com rios.
10Os montes te vêem e se contorcem;
passam torrentes de água;
as profundezas do mar fazem ouvir a sua voz
e levantam bem alto as suas mãos.
11O sol e a lua param nas suas moradas,
ao resplandecer a luz das tuas flechas sibilantes,
ao fulgor do relâmpago da tua lança.
12Na tua indignação, marchas pela terra,
na tua ira, calcas aos pés as nações.
13Tu sais para salvamento do teu povo,
para salvar o teu ungido;
feres o telhado da casa do perverso
e lhe descobres de todo o fundamento.
14Traspassas a cabeça dos guerreiros do inimigo com as suas próprias lanças,
os quais, como tempestade, avançam para me destruir;
regozijam-se, como se estivessem para devorar o pobre às ocultas.
15Marchas com os teus cavalos pelo mar,
pela massa de grandes águas.
(Habacuque 3.7-15)

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie é dividida em duas partes. Num primeiro momento, andamos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Agora lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três durante três domingos.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 7: Midiã é Cusã são termos sinônimos para definir a região, ao redor do Sinai, onde nômades acampavam. A vinda de Javé fará estremecer tudo ao redor do santo Monte Sinai.

Verso 8: O profeta recorre, poeticamente, à imagem do confronto de Javé com a natureza, na verdade, creio que podemos até dizer da reação da criação à vinda de Javé. E o profeta começa mostrando a reação das águas

Verso 9: a imagem de Javé montado num cavalo, como guerreiro libertador, nos lembra que, no início de sua profecia, Habacuque faz referência ao poder dos cavaleiros invasores.

Verso 10: a força da ação de Javé no continente faz o mar reagir e tremer.

Verso 11: aqui, Habacuque faz uso da imagem do guerreiro que possuí nas flechas e na lança a sua maestria.

Verso 12: marcha pela terra, ou seja, pisa de maneira marcada e ritmada. Calcar é separar os grãos da casca com batidas ou pisadas fortes. Habacuque recorre à uma imagem rural bastante interessante. Não é um marchar qualquer, mas sim que faz separação, que rompe com o que está no caminho. É o debulhar a terra para semear novamente, fazer brotar nova vida.

Verso 13: Há uma tensão explícita entre o povo que será salvo e o perverso. O povo não se rende ao jogo de poder e violência, mas espera em Javé. Já o perverso sentirá o poder da justiça de Javé. Ao ferir o telhado e descobrir os fundamentos, o Senhor põe no chão toda a casa do opressor.

Verso 14: um dos mais difíceis versículos de interpretar. Tanto a versão Hebraica quanto a Vulgata são imprecisos no registro da expressão “seus guerreiros”. A crítica tem o consenso de que o inimigo se destrói a si mesmo. A cena é a do guerreiro dando o golpe final para acabar com o dominado, mas inesperadamente Javé surge e derrota o opressor com sua própria arma.

Verso 15: Vindo do Sinai para exercer justiça, agora Javé se retira pelo mar, vitorioso.

A súplica do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a palavra de Javé por meio do salmo do profeta. A imagem predominante é a de Javé que vem para exercer justiça. Tal justiça se dá na libertação de tudo o que o profeta relatou como alarmante e aterrorizante até aqui. Dois aspectos desta imagem de Habacuque me chamam atenção

A primeira é como o profeta faz uso dos elementos da criação para mostrar a força como Javé se move para exercer justiça. Tal forma de relato não é exclusivo da literatura bíblica, existem relatos da ação de outros deuses para castigar o povo que mostram a criação sendo elemento, quer de destruição, quer para exercer o juízo. O que Habacuque faz é trazer tal imagem, viva para aquele povo naquele tempo, para a ação de Javé, que vem abalando os acampamentos, rasgando a terra e movendo as águas para exercer o juízo. Lembremos de duas imagens de justiça da história do povo de Javé que envolvem água: o dilúvio e a abertura do Mar Velho. Em ambas, a mão de Javé se faz sentir de maneira poderosa. Em ambas, as águas e toda a natureza, reagem e obedecem ao Criador.

A segunda é a forma como Javé executa o juízo. Ele não vem para salvar o opressor. Ele vem para aniquilar o opressor. É para colocar fim à opressão e ele o faz com as próprias armas do opressor. Javé não solucionará um problema de maneira pontual, ele solucionará de maneira definitiva e eficaz a opressão. O retrato pintado por Habacuque é uma cena cruel. O opressor vem com força para destruir o oprimido. Como uma tempestade que chega devastando tudo, o opressor se levanta para dar cabo do oprimido e o faz com requintes de crueldade, pois se satisfaz tanto em contemplar a morte do oprimido, que vão para mata-lo regozijando de alegria. Javé então surge, em meio ao sabor da vitória e da satisfação, e mata violentamente o opressor com suas próprias armas.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da vinda da justiça abalando e envolvendo a criação é presente nas falas de Jesus, vejamos, por exemplo, Mateus 24.29-31:

29Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. 30Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. 31E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

O contexto do dito de Jesus é o discurso sobre a grande tribulação. É o cenário descrito por ele do que acontecerá antes do dia em que ele, em glória, voltará. Jesus mostra como a criação se sujeitará e estará em suas mãos e, então, temos a revelação de como Jesus virá.

Tal qual no salmo de Habacuque, aqui a criação se curva e é instrumento da ação de Deus. O sol escurecerá, a lua não terá claridade, estrelas caindo, os poderes se rendendo. O próprio Jesus virá, não sobre cavalos, pois não sai de seu Santo Monte, mas sim sobre as nuvens, pois vem dos céus. Sua vinda é certa e ele reunirá seu povo. Agora não vem mais para matar o opressor, mas para reunir aqueles que são os seus escolhidos. Os elementos da criação se sujeitam e são instrumentos nas mãos do Senhor do Universo para cumprir os desígnios do Criador.

Jesus revela que, tal qual Javé prometeu, o dia da Justiça, o Dia Do Senhor viria a acontecer em sua volta. É uma leitura um tanto quanto difícil se associar a volta de Jesus ao Dia do Senhor e seu conceito no Antigo Testamento. Nós, cristãos, olhamos para o texto de Mateus e vemos que Jesus virá para consumar o tempo. É Jesus cumprindo o que está ordenado desde o início: a redenção da criação e dos escolhidos.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, o salmo do profeta e a resposta de Jesus a essa súplica e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que o Senhor move a criação para que seu juízo seja exercido. Mais que usar a criação de maneira utilitarista, precisamos compreender que Deus tem a criação em suas mãos. Isso inclui a nossa vida. Não importa o tamanho da opressão. Não estamos presos a questões circunstanciais. Elas nos limitam, nos chateiam, mas sabemos que nossa vida está nas mãos daquele que rege e chacoalha toda a criação em todos os âmbitos dela.

Habacuque nos mostra que não há opressão que não seja vencida pela mão libertadora de Javé. Ele nos revela que, mesmo que estejamos diante da morte, Javé vem em socorro de seu povo e ele vem para dar a solução definitiva. Quando estamos passando por situações difíceis, o convite de Habacuque é para que confiemos que ele sai “para salvamento do teu povo, para salvar o teu ungido”. Ele nos ama e nos quer próximos dele, as tribulações existem e muitas delas são consequências de nossos erros, mesmo assim diante de nossas falhas, Javé não fica distante de nós, ele está ao nosso lado e vem ao nosso encontro apresentando, em Cristo Jesus, a forma como devemos viver e vencer as opressões de nossas vidas.

Podemos contemplar a ação de Deus na história. Podemos contemplar a ação de Deus hoje. Diante da ação de Deus, temos a percepção de que tudo está em suas mãos e, por mais que nos questionemos porque Deus permite determinadas coisas na história, ele trará o livramento no tempo oportuno para uma opressão pontual. Mas lembre-se, todo e qualquer mal já foi vencido na cruz, nela está o livramento definitivo da humanidade do jugo do pecado. Nós somos livres. Não há nada que venha nos oprimir que possa arrancar de nós a presença do Espírito Santo libertador, que nos assegura a vida que só Cristo pode nos dar

Conclusão

Habacuque nos revela, em seu salmo, que devemos suplicar a Javé pelo livramento e confiar que ele virá. Mais que isso, aprendemos a confiar que todas as ações de Javé estão determinadas e ele age para que sua justiça seja feita. Confiar que Javé rege nossa vida é descansar nele em meio às tribulações, e por mais difíceis que sejam, Javé não nos desampara. Ele não está distante de nós, ele está conosco e esta expressão é mais que uma frase de efeito, é uma verdade realizada e já consumada em Cristo Jesus

Jesus nos mostra como a criação se renderá diante dele no dia de sua volta. Tudo se transformará para a consumação dos tempos. Ele revela que em sua volta haverá a conclusão de todo o plano de Deus para a sua criação. Haverá dias difíceis de tribulação e dor, passaremos por perseguições, por perdas irreparáveis, por dores insuportáveis, e em toda e qualquer situação teremos a libertação garantida em Cristo Jesus. Devemos perseverar e crer que ele prometeu e vai voltar. Não devemos viver presos ao nosso tempo, nem ao passado, mas sim olhar para o passado e ver que a ação de Deus nos conduz para a vida eterna em Cristo Jesus e virá o tempo em que tudo se consumará. Ele virá! Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Hoje somos convidados a suplicar, confiar e crer que há sim uma saída para nossas opressões e ela se encontra em Jesus. Como comunidade de fé somos convidados a juntos suplicar a Deus pela transformação de nossas vidas, confiar que ele está no controle de tudo e crer que ele tudo fará de bom para nós, independente de nossa vontade. Ele é o Senhor, Deus de nossas vidas. Ele é quem nos chama para vivermos com ele e juntos, como comunidade de fé, partilharmos a verdade de que a justiça reinará, apesar da corrupção vigente em nosso tempo nos fazer crer o contrário, Deus cumprirá e executará sua justiça. Proclamemos a justiça de Deus, com amor e misericórdia, certos de que o juízo dele vem!

Termino com os versos da Banda Kadoshi e que expressa bem a confiança daqueles que vivem pela fé a aguardar a justiça de Deus:

Haverá para mim, pra você o amanhã
Brilhará outra vez o sol da justiça
Mesmo que a esperança venha a acabar
Sinto a mão de Deus a me segurar

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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