Aviva a tua obra, ó Senhor

Mensagem pregada em 4 de setembro de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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1Oração do profeta Habacuque sob a forma de canto.
2Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações,
e me sinto alarmado;
aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos,
e, no decurso dos anos, faze-a conhecida;
na tua ira, lembra-te da misericórdia.
3Deus vem de Temã,
e do monte Parã vem o Santo.
A sua glória cobre os céus,
e a terra se enche do seu louvor.
4O seu resplendor é como a luz,
raios brilham da sua mão;
e ali está velado o seu poder.
5Adiante dele vai a peste,
e a pestilência segue os seus passos.
6Ele para e faz tremer a terra;
olha e sacode as nações.
Esmigalham-se os montes primitivos;
os outeiros eternos se abatem.
Os caminhos de Deus são eternos.
(Habacuque 3.1-6)

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie é dividida em duas partes. Num primeiro momento, andamos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Agora lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três durante três domingos.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 1: O capítulo três começa com a auto definição. É uma oração em forma de canto, um salmo cantado para expressar a esperança e a confiança no juízo de Javé.

Verso 2: O salmo aqui retoma a imagem dos dois primeiros capítulos: Javé exerce seu juízo, no entanto, o profeta clama para que Javé faça naquele momento o que fez no passado: o livramento em tempo de crise.

Verso 3: Temã é a região de Edom e Parã é um monte na península do Sinai. Ou seja, são regiões postas ao sul de Judá e de onde virá Javé para exercer juízo. Como? Por meio da sua glória e do seu louvor.

Verso 4: Esta glória é manifesta pelo poder de Deus no resplendor de sua luz.

Verso 5: Aqui uma sentença controversa. Mais que ameaças, há aqui a imagem de que o juízo de Javé se manifestava nas doenças e epidemias que assolavam àquela época.

Verso 6: uma vez saído de Temã e Parã, agora Javé para e olha para as nações. Tal imagem passa do movimento de corrida para a chegada de Deus. Ao parar, a terra treme. Ele então olha e sacode as nações, mostrando seu poder.

A súplica do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a palavra de Javé por meio do salmo do profeta. A expressão poética de Habacuque apresenta elementos que nos conduzem a compreender todo o juízo de Javé diante dos erros de Judá. É preciso pontuar que aqui há uma mudança na tônica do texto. Se antes o tom era indignado e perplexo, neste salmo o tom é de súplica e confiança. Pode vir o que for, pode acontecer o que for, Javé libertou no passado e libertará hoje.

O eixo para compreensão desta primeira parte do salmo é verso dois, que é um dos versículos conhecidos de Habacuque. No entanto, se trata de um versículo mal interpretado por conta do termo usado por João Ferreira de Almeida em sua tradução: aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos. Uma rápida comparação com traduções católicas e protestantes nos revelarão o real sentido do termo:

No meio dos anos manifesta-a (Bíblia do Peregrino)
Ao correr dos anos, faze-as reviver (Bíblia Pastoral)
Em nosso tempo faze-a reviver (Bíblia de Jerusalém)
Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras (Nova Versão Internacional)
Faze agora, em nosso tempo, as coisas maravilhosas que fizeste no passado (Nova Tradução na Linguagem de Hoje)
Aviva, Jeová, a tua obra no meio dos anos (Tradução Brasileira)

Estas são apenas algumas das maneiras de se traduzir o que Habacuque quer expressar. O profeta ouviu tudo o que Javé havia dito e estava alarmado, ou seja, estava muito preocupado e temendo pelo pior. Por isso ele clama a Javé para que ele faça nos dias de hoje o que fez no passado. Aviva! Traz de novo à vida! Reviva o que foi vivido. Mas o que foi vivido? Muito provavelmente Habacuque tem em mente toda a história de Judá e Israel. Habacuque olha para os feitos na vida de Abraão, Isaque, Jacó e, principalmente, em Moisés e olha para o tamanho da opressão que se prenuncia e, em sua súplica, clama a pleno pulmões: Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras!

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática do fazer reviver a glória de Deus foi abordada por Jesus em Mateus 13.51-52:

51Entendestes todas estas coisas? Responderam-lhe: Sim! 52Então, lhes disse: Por isso, todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.

Jesus havia proferido uma série de parábolas: do semeador, do joio, do grão de mostarda, do fermento, do tesouro escondido, da pérola e da rede. Ao final ele pergunta se os discípulos entenderam o que ele disse. Ao obter a resposta afirmativa, Jesus evoca mais uma imagem de seu tempo: o escriba.

O escriba era como, desde o tempo de Esdras, eram chamados aqueles que entendiam acerca da Lei. Outro termo usado para fazer referência a eles é “doutores da Lei” e comumente eram chamados, por questão de honra, Rabi. Com o fim do profetismo em Israel, os escribas passaram a cuidar da interpretação das Sagradas Escrituras. Ao fazer uso da imagem do escriba que é versado no reino dos céus, ou seja, que compreendeu a mensagem do Evangelho, Jesus diz que tanto o que foi feito no passado, quanto o que está sendo feito naquele momento, são mostras vivas do reino de Deus em ação. Ou seja, o pai que tira do depósito coisas velhas está trazendo à memória os feitos do passado e ao retirar coisas novas ele está reavivando o feito do passado hoje, ou seja, tornando a fazer hoje o que já foi feito no passado. Dando vida ao que antes era “apenas” uma história. O Reino de Deus promove na vida do discípulo e servo a capacidade de olhar para o passado e ter a certeza que Deus faz nova todas as coisas.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, o salmo do profeta e a resposta de Jesus a essa súplica e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que os atos de Deus no passado são verdades em nossas vidas hoje. Não importa o tamanho do problema que você vive, Deus fez no passado, faz hoje e sempre o fará. João Calvino afirma que “Seja o que for que Deus tenha que fazer, inquestionavelmente o fará, se ele o tiver prometido”. Mas o que ele nos promete? Que nunca nos abandonará, que não importa o tamanho do nosso erro e infidelidade, ele é misericordioso e fiel para caminhar conosco.

Em tempos de corrupção generalizada em todas as esferas da sociedade, infelizmente até na Igreja, precisamos confiar na justiça daquele que é o Senhor da Igreja e que nos chama para sermos os “escribas versados no reino dos céus” de nossos dias, ou seja, aqueles que olham para a história, recente ou não, do povo de Deus e apontam ali tudo o que Deus fez. Ao fazê-lo, não se prende ao passado, mas olha para o presente e aponta como Deus vai transformar a nossa realidade decaída e corrupta em uma realidade nova, transformada e remida. Ele não o fará somente na consumação dos tempos, ele o faz hoje, por meio dos servos do Reino de Deus, aqueles que são chamados para testemunhar da graça em todas as áreas da vida.

O que carecemos hoje é de clamar como Habacuque clamou. Olhar para a alarmante situação de nossa nação e, diante da opressão, contemplarmos onde o Espírito Santo pode nos usar para transformar a realidade em que vivemos. Muitas são as mazelas de nossa cidade, estado e nação. Muitas são as opressões que convivemos. Diante de todas elas clamar pelo avivamento de Deus. O avivamento não é um evento barulhento e pontual, é uma transformação contínua e eficaz como fruto da ação do Espírito Santo na vida do crente e que se desdobra no contexto em que ele vive.

Conclusão

Habacuque inicia seu salmo suplicando a Javé que reaviva sua obra em seus dias. Ele contemplou o juízo e temeu. Por isso clamou. Diante das imagens do salmo podemos ver como Javé viria de seu monte santo para abalar as estruturas do mundo e mudar a realidade de Judá. Nada escaparia à sua mão. Assim é a justiça de Javé: eficaz e definitiva. Confiemos, diante de uma sociedade corrupta e injusta, que Javé é o único capaz de mudar a realidade em que vivemos. Não deixemos de clamar pelo avivamento que vem dele para que, movidos pelo Espírito Santo, sejamos instrumentos de sua justiça.

Jesus faz uso da imagem de um escriba, figura controversa dos evangelhos, para mostrar como age um “escriba versado no reino dos céus”, ou seja, uma pessoa que domina bem as Sagradas Escrituras, mas que não é um mero conhecedor da letra, mas sim um discípulo de Jesus, que vive as promessas e as verdades de Deus em sua vida. Todo avivamento brota da Palavra. Por conhecer os feitos do passado, relatados na Palavra, Habacuque clama por avivamento. Se queremos um avivamento em nossas vidas, devemos clamar pelo Espírito Santo sim, para que ele nos coloque diante da Palavra e tenhamos nossas vidas transformadas pela força que dele vem.

Hoje somos chamados a clamar pelo avivamento, pela transformação da realidade em que vivemos. Somos chamados a olhar para a corrupção ao nosso redor e proclamar aquele que é o único capaz de exercer justiça. A Igreja de Cristo não pode mais se calar diante da corrupção e nem reduzir a discussão da corrupção a mero debate ideológico partidário. Precisamos superar tal discurso e olhar para a realidade da nação e nos erguermos como cidadãos do Reino de Deus, proclamadores da justiça e da graça de Deus que transforma toda e qualquer realidade corrupta. A corrupção não é mera questão partidária, é da natureza humana caída e só o Senhor da vida pode mudar a nossa natureza.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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