Quem é Jesus no Brasil – III

Texto de autoria de Gabriele Greggersen, publicado originalmente em infoPastor


Se me perguntam, quem é Jesus para as pessoas da rua de hoje, eu teria várias respostas. Temos aí: O Jesus fast-food, aquele que, quando a fome aperta, e isso acontece, no máximo, uma vez por semana, a gente a satisfaz num piscar de olhos, passando na igreja. O Jesus descartável, que é de grande utilidade, mas que, depois de usado, é jogado fora.

O Jesus facebook, que reúne uma grande comunidade, mas na qual as relações são superficiais e baseadas em selfies individuais e coletivos, tirados muitas vezes à distância, com o pau de selfie. Por meio dele, pessoas totalmente desconhecidas umas das outras podem se comunicar como velhos amigos (mas sem nenhuma profundidade, como nas velhas amizades).

Já o Jesus whatsapp, que é um aplicativo facilmente instalado e gratuito, que permite uma comunicação de texto ou de voz instantânea, é para pessoas mais chegadas: familiares, parentes, e amigos mais próximos, por quem não temos paciência de esperar até estarem disponíveis.

O Jesus de plástico, que é totalmente artificial e por isso, limpinho e prático, de fácil manuseio, modular, durável, mas extremamente agressivo em relação àquela natureza, originalmente criada por Deus, portanto, extremamente contraditório.
O Jesus investimento financeiro, que é como a Bolsa, sobe e desce em termos de retorno financeiro, mas no final, se bem aplicado, acaba dando lucro (pelo menos é o que diz a fé da teologia da prosperidade).

Temos ainda o Jesus promoção, que concorre com muitos outros produtos similares, mas acaba sendo escolhido por ser o mais barato, mesmo que seja de marca desconhecida e de qualidade duvidosa.

O Jesus fim de feira é quase igual, com a diferença de que se deteriora ainda mais rápido do que foi comprado.

O Jesus antidepressivo é aquele que te põe para cima quando tudo parece estar perdido e você, sem perspectiva e esperança de vida, mesmo que você tenha ciência de que se trata de uma droga, que o mantém alegre na base da química. Esse Jesus nunca está contra você, mesmo quando você está merecendo uma surra, pelo contrário, ele está sempre incentivando você a continuar, até mesmo no caminho que dá num abismo.

O Jesus videogame, em quem você descarrega toda a sua raiva e frustração de modo violento, mas quando ele reage e te mata, você sempre tem uma vida de sobra para voltar a descarregar a sua raiva nele. Esse é o Jesus dos céticos, dos ateus e de todos aqueles que por algum motivo, explícito ou oculto, estão em pé de guerra com Deus.
Bem, todas essas caricaturas de Jesus estão à solta ao nosso redor. Mas acredito que tem uma que abarca todas essas que é o Jesus virtual. Ele se parece em tudo com o Jesus concreto, mas que na realidade (com o perdão da palavra, pois ela mesma não existe para os adeptos desse Jesus) não tem nada de material. Ele não passa de uma impressão da sua mente e dos seus sentidos, que foi gerada por uma ilusão de ótica. E ele é de uma espécie de virtualidade ainda mais interessante que é a 3 D, pois parece que ele tem profundidade e que tudo o que provoca em nós seja profundo, mas não passa de uma imagem numa tela plana, com ajuda de uns óculos que mudam a nossa visão das coisas.

Esse Jesus é o contrário do Jesus realista e material, porque é subjetivo: ele não responde como Alguém real que estivesse fora de nós. Sua resposta não passa de um reflexo de nós mesmos e da resposta que daríamos a nós, depois de termos feito o malabarismo de nos colocarmos fora de nós. Trata-se ainda de um Jesus-Zen, totalmente espiritual, não humano, que está em tudo (porque você mesmo está em tudo) e que pode ser alcançado com o esvaziamento da mente, através do qual se entra no estado de Nirvana, que é o Céu virtual, produzido pela nossa própria psiqué e pela meditação transcendental. O oriente e sua filosofia parecem estar longe de nós, mas estão cada vez mais perto, não apenas por sua lenta ocidentalização, mas também pela nossa absorção de algumas partes dele, infelizmente não as melhores (e tem muita coisa boa na filosofia oriental), mas apenas aquelas que coadunam com um mundo cada vez mais virtual e panteísta.
Jesus é Deus e está em tudo. No fundo, Deus é você mesmo, pelo que recaímos no pecado original, da busca do homem por sua independência de Deus, e que nos lançou num eterno dualismo entre mente e corpo, mundo concreto e mundo espiritual, mundo artificial e mundo natural. Foi o pecado original que nos tornou pessoas fragmentárias cindidas, em eterna crises (que significa fissura, rompimento), pessoas enfim, para quem Jesus Cristo só pode ser uma realidade virtual, segundo a qual somos salvos apenas virtualmente e não, de verdade.
Para Lewis, Jesus era tão real e concreto, que, se ele tivesse estado lá no dia da crucificação, poderia ter tirado uma lasca da cruz de Cristo. O Jesus de verdade é palpável, é humano e divino ao mesmo tempo, é uma realidade dentro e fora de nós e quanto mais fora, quanto mais descobrimos esse Outro, esse grande Desconhecido, mais dentro estará de nós: eis aí o segredo.

Gabriele Greggersen
Pedagoga e Teóloga

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