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Imagens de Jesus

Texto de autoria de Adair Neto, publicado originalmente em Furoa


Tornou-se comum atualmente o uso de imagens guerreiras e violentas de Deus. Fala-se de Deus não como aquele que age pela graça e cuja justiça é a misericórdia, como falava Lutero, mas como o Imperador que está do nosso lado e aniquilará todos que não estão conosco.

É preciso, pois, recuperar a imagem de Jesus Cristo vivenciada pelos primeiros cristãos, baseada no amor, na paz e na justiça. Para isso, é interessante analisar o desenrolar das concepções sobre Jesus. Sirvo-me aqui de um artigo do professor Helmut Renders, extraindo dele duas imagens e parte dos seus comentários.

Bom Pastor

Jesus, o bom pastor - Catacumba de Priscila, Roma, 250
Jesus, o bom pastor – Catacumba de Priscila, Roma, 250

Jesus, o bom pastor, é o motivo mais antigo encontrado na história nos artefatos. A localização, a catacumba de Priscila, um lugar de sepultamento, remete-nos, primeiro, a uma época onde não se era permitido erguer publicamente representações da fé cristã. Segundo, ele nos explica a provável escolha do motivo. Por um lado, a imagem do bom pastor possibilitou a identificação com ele por parte de pessoas marginalizadas na sociedade, tendo o pastor uma fama de não pertencer a um lugar fixo, de não se submeter às ordens estabelecidas, de viver, muitas vezes, uma vida mais solitária, longe do ambiente de uma família constituída. Por outro lado, a imagem do pastor articula também um Deus que não exclui este grupo social.

A composição destaca o aspecto do cuidado, sinalizado pelo balde com água na mão direita e pela ovelha carregada nos ombros, ao redor do pescoço. Ao lado do aspecto do cuidado, há uma interessante dinâmica relacional. Enquanto as três ovelhas olham para o pastor, o pastor olha para os observadores e observadoras da pintura. Assim, forma-se uma unidade aberta em Cristo. As ovelhas estão em comunhão, e a figura de Jesus, o bom pastor, transcende esta comunhão, ou abre esta comunhão, para o/a espectador/a.

Sobre o artista, não sabemos nada, senão da sua classe social: o artista visual e plástico pertencia, na antiguidade, ao grupo dos que trabalhavam com as suas mãos, o que era especialmente comum entre os/as escravos/as e artesãos/ãs. A arte não sinaliza aqui erudição, mas um estado mais humilde de origem. O motivo, entretanto, é uma adaptação da cultura Greco-Romana, mais exatamente de Figuras de Hermes (Eusébio, 2005, p. 17-19) e suas representações com uma ovelha ao redor do pescoço (um detalhe que o texto bíblico não relata). Jesus, o bom pastor, substituiu o mensageiro dos deuses, Hermes.

Pantocrator

Cristo Pantocrator, Igreja Santa Constanza, Roma, século 4
Cristo Pantocrator, Igreja Santa Constanza, Roma, século 4

Jesus Pantocrator é claramente um Cristo imperial e, consequentemente, insigne dos imperadores, cristãos, sim, mas do poder ‘cívico’. Pela presença da mesma linguagem imagética em moedas de imperadores e nos ‘céus’ das igrejas, estas esferas distintas foram interligadas, finalmente, fundidas; pareciam falar a mesma língua e pertencer ao mesmo mundo. Enquanto, por exemplo, o Cristo cósmico da epístola de Efésios servia como protetor da jovem igreja e, ao mesmo tempo, unia o mundo nele (Ef 4.6,10), o Cristo Pantocrator é patrono da ordem sociopolítica estabelecida do mundo, inclusive dos tronos.

Somos obrigados, ao analisar essas duas imagens de Jesus, a questionar: a nossa concepção de Jesus assemelha-se mais ao Jesus Bom Pastor ou ao Jesus Pantocrator?

A maioria das pessoas certamente foi formada sob a imagem do Pantocrator. Porém, a imagem que encontramos nas narrativas do Novo Testamento é a do Cristo Pobre. O Deus revelado em Jesus Cristo é humilde, servo e abriu mão de sua glória e poder, enquanto o Cristo Imperial é fruto da institucionalização e do alinhamento da igreja ao poder.

“Mas o Novo Testamento também chama Jesus de Rei”, o leitor pode alegar. De fato. Porém, ao fazer isso, os escritores bíblicos estavam subvertendo a noção de poder e de reinado. O Reino de Deus opera sob uma grande inversão: o Rei não é como o César, que impõe sua vontade pela força, mas é aquele que esvaziou-se de si mesmo, é o Crucificado; o Reino de Deus não é dos religiosos e dos conhecedores de Bíblia, mas daqueles que, como crianças, reconhecem sua incompetência e dependência total da graça divina.

Os evangelhos releram as tradições do Israel campesino, que esperavam um Messias Pastor (veja Isaías 6,1-9,7, Isaías 11,1-9, Miqueias 5,2-5 e Zacarias 9,9-10) e viram em Jesus a chegada dessa esperança.

Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (João 10)

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