Sermões

A queda

Sermão pertencente à série Salvação, pregado em 5 de junho de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP


2016-06-serie-mensagens

Vivemos num tempo onde muito se fala de igreja, fé e religião. Fala-se de tudo: desde como obter sucesso em sua vida financeira a resolver seus problemas emocionais. No entanto, muito pouco se fala da centralidade da mensagem do evangelho, a salvação em Cristo Jesus. Durante quatro encontros abordaremos a salvação mostrando a necessidade da consciência da queda, o pacto de salvação em Cristo Jesus, a pessoa de Jesus como mediador e a importância da fé para salvação. Quero convidar você a se juntar a nós nestes encontros e juntos aprendermos mais sobre a salvação em Cristo Jesus. Esta série de mensagens é baseada na Confissão de Fé de Westminster, capítulos 6, 7, 8 e 14 e vamos recorrer a ela constantemente.

Hoje falaremos sobre a queda. Muitas pessoas passam pela igreja sem tomar ciência de sua condição de pecadores. Reconhecer-se como pecador é essencial para a vida cristã. É a consciência do pecado que nos difere dos nãos cristãos. Ao longo da história do cristianismo, muitos são os exemplos de cristãos que ressaltaram a necessidade do reconhecimento do pecado e do ser pecador como parte essencial do ser cristão. Apóstolo Paulo, Santo Agostinho, João Calvino são grandes exemplos de tal atitude. Acontece que em nossos dias falar da culpa, do pecado e do erro é sempre incômodo. Preferimos ouvir sobre bênçãos, paz e amor. Falar da condição de pecadores é necessário para reconhecermos que nossa vida não é nada.

A Confissão de Fé de Westminster trata no Capítulo VI da queda do homem, do pecado e do seu castigo. Nele, em seis itens, são abordadas as questões concernentes a essa queda. Vamos nos debruçar sobre estes itens e compreender melhor a necessidade de reconhecer nossa condição de pecadores.

Vejamos o primeiro item, leia comigo:

Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram ao comer do fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, Deus permitiu esse pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória.

O homem e a mulher foram postos no jardim e a eles foi dado a ordem de não comerem do fruto da árvore do bem e do mal. No entanto, seduzidos pela serpente, a mulher e o homem comeram, rompendo com o pacto de obediência feito entre Deus e o homem. Tal desobediência pode parecer-nos distante, mas não é. Paulo, ao escrever aos Coríntios afirma:

“Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Coríntios 11.3).

Portanto, tal desobediência não foi exclusividade de Adão e Eva.

Tal pecado, no entanto, não foi um erro no projeto e presciência de Deus, antes, sempre fez parte dos desígnios de Deus. Paulo escreve aos Romanos dizendo

“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 5.20-21)

e ainda

“Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (Romanos 11.32).

Não havia surpresa para Deus no erro de Adão e Eva, pois ele não teve expectativas quanto ao erro deles e não tem expectativas quanto aos nossos erros.

Vamos continuar olhando para a Confissão de Fé de Westminster, no item II. Leia comigo:

Por esse pecado, eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as faculdades e partes do corpo e da alma.

O pecado causou um efeito devastador na humanidade. O que me chama atenção neste item da Confissão de Fé é como ela aponta os efeitos do pecado na humanidade: “inteiramente corrompidos em todas as faculdades e partes do corpo e da alma”. O pecado não corrompe apenas a espiritualidade do ser humano. O maior erro a que somos levados a crer é que o pecado tem efeitos apenas nas questões espirituais de nossa vida. Tal engano se dá pelo fato de colocar a espiritualidade como um departamento à parte de nossas vidas e assim pensamos que o pecado só tem vez quando falamos de assuntos espirituais.

A queda nos corrompeu em todos os aspectos. Fomos inteiramente corrompidos. Não apenas espiritualmente, mas também em nosso corpo e em nossas habilidades e faculdades mentais. Nossos pensamentos, nossa capacidade de discernimento, nosso senso de justiça e igualde, nosso senso de humanidade, tudo foi tomado e corrompido pelo pecado. Por isso não há nada, absolutamente nada que possamos fazer de bom que não proceda de Deus. A queda corrompeu nossa humanidade e perdemos não apenas um lugar no jardim, mas sim principalmente a essência e a ternura do jardim.

Vamos continuar olhando para a Confissão de Fé de Westminster, no item III. Leia comigo:

Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito de seus pecados foi imputado a seus filhos; a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foi transmitida a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária.

A definição bíblica está em Romanos 5.12:

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”.

Muitos consideram injusto o fato da humanidade inteira pagar pelo erro de um casal. Para nós, cristãos, parece um argumento absurdo, mas ele precisa ser considerado na ótica daqueles que não conhecem a mensagem da salvação. O erro de Adão e Eva recai sobre sua descendência. Assim, ao serem profundamente afetados e transformados pelo pecado, podemos dizer que são impressos em seu DNA as consequências do erro.

O próprio Jesus, em sua conversa com Nicodemos, fala sobre essa herança. Em João 3.6 Jesus diz que

“O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”.

Jesus não está aqui espiritualizando o pecado, mas afirmando que não dá para nascer para a nova vida se não morrer a antiga vida. Ou seja, é preciso que nossa natureza corrupta seja mortificada para que possamos renascer pelo agir do Espírito Santo para vivermos hoje a vida que Deus nos oferece. Herdamos em nossa essência o pecado e sobre isto que fala o próximo item da Confissão de Fé, leia comigo:

Dessa corrupção original, pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo mal, procedem todas as transgressões atuais.

Uma vez sendo parte de nossa essência, o pecado rege nossas atitudes. Ficamos totalmente adversos a toda prática do bem. O bem não nos é natural. Contrariando a premissa católica de que todo homem é bom, a Bíblia é clara em dizer que estamos dominados pelo pecado e que somos mortos em nossos erros. Tiago afirma que a cobiça nos leva a consumação do pecado que há em nós. Paulo afirma que a graça se derrama sobre nós, que estamos mortos em nossos delitos.

É também Paulo que afirma também que não há um justo sequer. O pecado é parte de nós. Não há bem que possamos fazer. Veja, por exemplo, Romanos 7. 18-19:

Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço.

Não há nada, absolutamente nada de bom em nós. Não devemos, no entanto, usar tal argumento para justificarmos nossos erros como se não tivéssemos responsabilidade sobre eles. É preciso ter a consciência do mal que há em nós para sabermos que todo o bem procede de Deus.

Vamos continuar olhando para a Confissão de Fé de Westminster, no item V. Leia comigo:

Esta corrupção da natureza persiste, durante esta vida, naqueles que são regenerados; embora seja ela perdoada e mortificada por Cristo; todavia tanto ela como os seus impulsos são, real e propriamente, pecado.

Uma das frases mais mentirosas que há no meio cristão é “fulano está em pecado”. Ela é dita por aqueles que acreditam que o pecado é extinto de nossa natureza ao serem resgatados por Cristo. Somos regenerados em Cristo, mas nossa natureza pecaminosa persiste em nós. Por isso Paulo afirma aos Romanos:

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões” (6.12)

e mais à frente

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” (6.14).

O pecado não some de nossa natureza, visto que fomos gerados e formados nele. No entanto, em Cristo, temos a força para vencê-lo.

Por fim, vamos olhar para a Confissão de Fé de Westminster, no item VI. Leia comigo:

Todo pecado, tanto o original como o atual, sendo transgressão da justa Lei de Deus e contrário a ela, torna, pela sua própria natureza, culpado o pecador e, por essa culpa, ele está sujeito à ira de Deus e à maldição da lei; portanto, sujeito à morte com todas as misérias espirituais, temporais e eternas.

Você se reconhece culpado diante de Deus? Quantos são os erros que você confessa? Ao confessar o seu pecado a Deus, dê nome a eles. Enumere-os. Tal atitude é essencial para reconhecer a natureza pecaminosa na qual vivemos. Reconhecer-se pecador não é fazer-se de coitado e vítima, mas é reconhecer o poder de Cristo que transforma a realidade de nossas vidas. Somos culpados, sim, com todos os nossos pecados. Estamos sujeitos à ira e às penas da lei, à morte e às misérias espirituais, temporais e eternas. No entanto, Cristo toma sobre si toda nossa culpa e pecado. Por isso enfatizo, no período da Páscoa, a sexta-feira da paixão. Porque precisamos encarar nossos erros, nossa culpa e vê-los todos pregados no madeiro.

Conclusão

Concluindo. O pecado, quer o original, quer o de nossa geração, nos torna culpados diante de Deus e por conta desta culpa estamos sujeitos à ira de Deus. O que precisamos é tomar conhecimento de nossa condição de pecadores para que compreendamos a necessidade de sermos transformados, em Cristo Jesus, para cumprir a vontade de Deus. Avalie sua vida e veja o quanto você está distante da vontade de Deus. Arrependa-se e ore, pedindo orientação do Espírito Santo para sua vida. O reconhecimento do pecado é o primeiro passo para a transformação de nossas vidas.

A queda teve consequências em toda a humanidade. Fomos tomados e contaminados em nossa essência. No entanto, Deus não nos abandonou à nossa própria sorte e nos provê uma saída e um caminho:

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida” (Romanos 5.18).

É sobre este pacto que falaremos em nossa próxima mensagem.

Talvez você se sinta um tanto quanto desanimado diante do fato de sermos naturalmente pecadores. Não se sinta assim, é natural que o pecado nos desanime e nos puxe para o lado dele. Lembre-se que em Cristo há salvação e recursos para vencer o pecado, mesmo que ele esteja entranhado em nós. Para te confortar, quero retomar as palavras de Romanos 6.14:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”. E é sobre isto que falaremos domingo que vem.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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