Sermões

Ai deles, ai de mim

Mensagem pregada em 1º de maio de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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6Não levantarão, pois, todos estes contra ele um provérbio, um dito zombador? Dirão:

Ai daquele que acumula o que não é seu (até quando?), e daquele que a si mesmo se carrega de penhores! 7Não se levantarão de repente os teus credores? E não despertarão os que te hão de abalar? Tu lhes servirás de despojo. 8Visto como despojaste a muitas nações, todos os mais povos te despojarão a ti, por causa do sangue dos homens e da violência contra a terra, contra a cidade e contra todos os seus moradores.

9Ai daquele que ajunta em sua casa bens mal adquiridos, para pôr em lugar alto o seu ninho, a fim de livrar-se das garras do mal! 10Vergonha maquinaste para a tua casa; destruindo tu a muitos povos, pecaste contra a tua alma. 11Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento.

12Ai daquele que edifica a cidade com sangue e a fundamenta com iniquidade! 13Não vem do Senhor dos Exércitos que as nações labutem para o fogo e os povos se fatiguem em vão? 14Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.

15Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro, misturando à bebida o seu furor, e que o embebeda para lhe contemplar as vergonhas! 16Serás farto de opróbrio em vez de honra; bebe tu também e exibe a tua incircuncisão; chegará a tua vez de tomares o cálice da mão direita do Senhor, e ignomínia cairá sobre a tua glória. 17Porque a violência contra o Líbano te cobrirá, e a destruição que fizeste dos animais ferozes te assombrará, por causa do sangue dos homens e da violência contra a terra, contra a cidade e contra todos os seus moradores.

18Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos?

19Ai daquele que diz à madeira: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode o ídolo ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, mas, no seu interior, não há fôlego nenhum. 20O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra. (Habacuque 2.6-20)

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie será dividida em duas partes. Num primeiro momento, andaremos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Posteriormente lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três, em separado.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 6: após a visão do juízo de Javé, o profeta volta-se para aquilo que acontecerá com este povo que vem com poder e violência. É, em certa medida, uma resposta ao verso 1.13. Inicia-se, então os cinco “ais” com a condenação ao roubo.

Verso 7: a resposta aos roubos será a virada de mesa: os credores se levantarão e abalarão os ímpios.

Verso 8: tudo o que possuíram será repartido e espalhado pela terra.

Verso 9: aqui a condenação quanto à segurança conquistada às custas da violência contra os outros.

Verso 10: aquele que sobe na vida às custas da opressão e morte não ficará impune.

Verso 11: até mesmo os materiais que eles roubaram vão clamar contra eles.

Verso 12: a opressão é condenada, a dominação para satisfação de suas glórias;

Verso 13: toda a luta em busca de segurança e poder é em vão.

Verso 14: no entanto a glória do Senhor garante a paz necessária e esta glória irá cobrir toda a terra.

Verso 15: a condenação ao sadismo. O uso para prazer sexual dos que são dominados e o uso para seu prazer e entretenimento.

Verso 16: os que agem sadicamente experimentarão o juízo vindo da própria mão de Deus.

Verso 17: a matança de animais e do campo também será cobrada e eles sofrerão por conta dela.

Verso 18: do que adianta um deus que não é vivo? Do que adianta ter um deus que barganha e dá benefícios se é um deus morto?

Verso 19: aqueles que se entregam ao falso deus se entregam a um deus morto.

Verso 20: Javé, no entanto, pede silêncio em seu santo templo pois ele é Deus vivo e vai falar!

O clamor do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a palavra de Javé por meio dos cinco “ais”. O “ai” é um gênero literário. Seu uso era comum em ambiente fúnebre. Serve para chorar um morto. O uso do “ai” no Antigo Testamento não é exclusivo de Habacuque, ocorre também em Isaías 14.51 e Jeremias 23.13, o que pode nos levar a acreditar ser seu uso corrente em toda Judá. Tão corrente que chega aos dias de Jesus, que faz uso deles. Aqui em Habacuque há, no entanto, um uso diferente dele, visto que não chora um morto, mas fala de um “morto-vivo”, o inimigo que vem para atacar, mas que, mesmo cantando vitória, será derrotado por Javé.

Antes de falarmos deles diretamente, é mister observar que há uma quebra da estrutura literária entre o quarto e o quinto “ai”. Nos quatro primeiros “ais” a sequência é a mesma: queixa iniciada com “ai” e juízo que sofrerá por conta dele, no último “ai” no entanto, há um prelúdio, duas perguntas que introduzem o quinto “ai”. Esta ruptura na estrutura literária indica uma possível inserção tardia ao texto, possivelmente no quando da composição do terceiro capítulo, o salmo de Habacuque. Outra ruptura é na temática, no quinto “ai” parece mais uma profecia contra o próprio povo de Judá que aos inimigos neobabilônicos. Temos, então, cinco temas que motivam os “ais”: o roubo, a segurança às custas do domínio, a opressão, o sadismo e infidelidade a Javé.

O primeiro “ai” versa sobre o roubo: aqueles que acumulam o que não é seu terão todos os seus bens tomados. Os ímpios irão colher o que plantaram. Assim como conquistaram todos os seus bens, ser-lhe-ão tirados. A punição derrubará seu deus, o poder, e eles serão divididos em muitas nações.

O segundo “ai” versa sobre a segurança às custas do domínio: a dominação é feita para garantir a segurança de seus reinos. Colocam os dominados como escudos de suas terras a fim de não serem atingidos. A pedra clamará, ou seja, os próprios materiais tomados para construção de suas fortalezas serão agentes da justiça sobre a vida deles.

O terceiro “ai” versa sobre a opressão: cidade edificada a custo de muita opressão. Há registros históricos de que Nabucodonosor se orgulhava do número de povos escravizados para a construção da Babilônia, e também se orgulhava do número de mortos para a edificação da cidade. A terra vai se encher da glória de Javé e aqueles que oprimiam serão julgados.

O quarto “ai” versa sobre o sadismo: os dominadores embebedavam os dominados, abusavam deles, tanto sexual quanto moralmente, os faziam de objeto de prazer e entretenimento. A estes que dominaram e consumiram os seus iguais, seria dado a beber do cálice da mão direita de Javé, ou seja, a justiça de Javé recairia sobre eles. O que era tido como glória se tornaria em vergonha e ruína.

O quinto “ai” versa sobre a infidelidade a Javé: mais que uma condenação a adoração à imagens, Habacuque aqui condena a infidelidade a Javé. Aqueles que colocam qualquer coisa no lugar de Javé. Calar-se na presença de Javé é colocar-se diante dele para ouvir o que ele tem a dizer.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática dos “ais” como lamento sobre a vida de “mortos-vivos” é presente nos evangelhos. Vejamos Lucas 6.24-26

24Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. 25Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar. 26Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas.

O contexto dos “ais” de Jesus está no registro do evangelista das bem-aventuranças. Em contraste com as bem-aventuranças apresenta quatro condenações seguindo a mesma estrutura literária dos “ais” de Habacuque: queixa iniciada com “ai” e juízo que sofrerá por conta dele. Os “ais” de Jesus não são exclusivos aqui em Lucas, mas temos também em Mateus e Marcos. Separei, no entanto, estes quatro “ais” por sua semelhança temática com o texto de Habacuque. Nos quatro “ais” de Jesus temos a temática da riqueza, fartura, alegria e fama.

O primeiro “ai” versa sobre a riqueza: aquele que depende da própria riqueza já desfrutam de seus benefícios, mas sofrerão por eles.

O segundo “ai” versa sobre a fartura: aqueles que esbanjam o que tem, que fazem questão de se vangloriar de suas posses, irão sofrer quando a roda girar e perderem tudo o que tem.

O terceiro “ai” versa sobre a alegria: aqueles que estão felizes com sua segurança firmada em seus próprios bens, um dia irão chorar e lamentar diante da pobreza em que se encontrarão.

O quarto “ai” versa sobre a fama: aqueles que se consideram importantes por serem conhecidos e louvados nas ruas, por aqueles que buscam fama e riqueza, assim fizeram com os falsos profetas, aqueles que falam o que o povo quer ouvir e não o que Deus manda dizer.

Em todos estes quatro “ais” de Jesus precisamos nos lembrar que são reações às bem-aventuranças que, em síntese, versam sobre a dependência de Deus e que servir ao Senhor é abrir mão de tudo, confiando e firmando nossas vidas em nosso Deus. Sendo estes quatro “ais” advertências àqueles que são infiéis a Deus, o próprio Jesus se encarrega de nos dizer que tais pessoas não devem ser perseguidas, mas alvo de nossas orações, é o que ele diz nos versos seguintes de Lucas 6.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, a resposta de Javé ao clamor do profeta e a resposta de Jesus a esse clamor e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que devemos vigiar para que não venhamos a incorrer na infidelidade a que o povo de Judá ocorreu e também não venhamos a cometer os mesmos erros que os neobabilônicos cometeram.

A infidelidade do povo de Judá os levaram a sofrer o juízo que sofreram. Já versamos sobre isso nas mensagens anteriores. Eles sofreram por colocar Javé de lado e se dedicarem a si mesmos. Quando Habacuque diz “Ai daquele que diz à madeira: Acorda! E à pedra muda: Desperta!” ele está dizendo que o povo coloca sua confiança nas coisas que possuem, nos deuses de imagem, nas barganhas e negociatas da vida. A fidelidade a Javé garante vida e é a esta fidelidade que Habacuque nos convida a viver. Lembremos das palavras do verso 4: o justo viverá pela fé. Não pelas próprias forças. Muitos de nós colocam sua confiança na conta bancária, na pessoa do marido ou esposa, na igreja, no pastor, nas lideranças, mas não colocam sua confiança no Deus verdadeiro que nos convida a uma vida de fé.

Os neobabilônicos cometeram um grave erro. O povo a quem dirigiu suas palavras, em Lucas 6.24-26, cometeram o mesmo erro. Confiaram mais em si mesmo que em Deus. Quando firmamos nossa fé em nós mesmos estamos colocando nossa confiança no que há de mais falho e egoísta que existe. Somos pecadores e jamais conseguiremos ser bons o suficiente. O que acontecerá quando tudo o que você possui como alicerce de sua vida vier a ruir? A confiança em si mesmo só é saudável na medida que temos a certeza que, pela força do Espírito Santo em nós, somos capazes de viver a vontade de Deus em toda e qualquer circunstância. Confie apenas em si mesmo e experimentará a ruína. Confie apenas em Deus e experimente muito mais do que pedimos ou pensamos conforme o seu poder que opera em nós.

Conclusão

Habacuque apresenta cinco razões pelas quais o juízo de Javé recairá sobre aqueles que dominarão e ocuparão Judá. Tais razões culminam na quinta razão: a idolatria. Os ídolos, por si só, não têm vida, personalidade ou poder. São objetos ou pessoas que por si só não possuem o poder de mover a história, o tempo e as nações. Mas Javé não, ele é real, vivo e poderoso. Os idólatras dão ordens aos seus ídolos, barganham com eles. Javé convida seu povo à uma vida de obediência e relacionamento verdadeiro com ele. Obedecer é reconhecer que Javé está no controle. Coloque-se diante de Javé, o Deus verdadeiro, em silêncio para ouvir o que ele tem a dizer.

Jesus, nos quatro “ais” relatados em Lucas 6.24-26, nos mostra como a confiança nas riquezas, fama e vontades próprias podem significar nossa ruína. Jesus nos quer próximo dele para que aprendamos a viver pela fé, confiando em Deus e vivendo obedientemente à sua santa vontade. Jesus nos chama a entregar tudo o que temos e caminharmos com ele o caminho da vida. Riquezas, fama e desejos pessoais não garantem vida, são correntes que nos aprisionam e nos impedem de viver de verdade. Liberte-se das correntes que te afastam da vontade de Deus e experimente a liberdade de viver pela fé.

Hoje, nós chamados a viver pela fé, reconhecendo que somos diariamente tentados a abrir mão da vida com Deus para termos riquezas, fama, poderes que o mundo nos oferece como sendo bons, mas que na verdade nos levam a caminhos de morte. Quando tudo estiver complicado, quando tudo parecer não haver saída, lembre-se que o justo viverá pela fé. Quando os poderes deste mundo tentarem te dominar, lembre-se das palavras de Habacuque: “O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.” O Senhor está conosco, templo do Espírito Santo, ouçamos sua voz para sabermos como enfrentar os poderes deste mundo. Aqueles que se calam diante de Deus ouvem sua voz e vivem sua vontade. Fala ao nosso coração, Senhor.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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