Sermões

Pela fé

Mensagem pregada em 24 de abril de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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1Pôr-me-ei na minha torre de vigia, colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta eu terei à minha queixa. 2O SENHOR me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo. 3Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará. 4Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. 5Assim como o vinho é enganoso, tampouco permanece o arrogante, cuja gananciosa boca se escancara como o sepulcro e é como a morte, que não se farta; ele ajunta para si todas as nações e congrega todos os povos. (Habacuque 2.1-5)

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie será dividida em duas partes. Num primeiro momento, andaremos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Posteriormente lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três, em separado.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 1: aqui parece haver uma retomada à razão de ser do livro, a saber, a queixa inicial nos versos 1-4. Ao retomar a queixa inicial, e já com a resposta inicial de Deus, o profeta se coloca sobre a torre de vigia. Esta torre não é uma torre do templo, mas sim uma torre onde os guardas ficam vigiando se haverá ataque inimigo.

Verso 2: A resposta de Javé é direta e curta. Tão curta que cabe em tábuas para que aqueles que passam possam ler, até mesmo quem passa correndo.

Verso 3: há aqui um clamor à esperança; a resposta já vem, está a caminho. Ainda não chegou? Aguarde, ela vem e chegará!

Verso 4: aqui está o cerne de todo o livro do profeta. Absolutamente tudo converge para este versículo. Aqui é o centro de tudo o que significa viver com Javé.

Verso 5: aqui o profeta retoma a imagem dos neobabilônicos. Aqueles que vinham chegariam trazendo terror e morte, mas o seu fim, por maior que seja o seu poder, é certo nas mãos de Javé.

O clamor do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a resposta do profeta a Javé. O primeiro aspecto que quero destacar é a postura do profeta e logo em seguida a proclamação central da profecia de Habacuque.

Diante da resposta de Deus, de que haveria juízo em forma de destruição, Habacuque se coloca em estado de alerta. Ele anseia pela vinda do juízo. Ele sabe que virá e por isso mesmo se coloca em prontidão na torre de vigia, pois ele deseja que se cumpra o que Javé havia dito. Ele espera. E Javé diz a ele que a resposta ao seu clamor e à sua indagação está na sentença que é o cerne da profecia e que deve ser escrita em tábuas para que as pessoas possam ler, mesmo que passem correndo. Esta promessa irá se cumprir. Quando? No tempo determinado. Mesmo que pareça demorar, ela se cumprirá. Por isso o profeta espera. Mesmo que pareça demorar, não irá demorar, pois é no tempo de Javé que ela irá se cumprir. O estado de alerta do profeta leva-o a contemplar a sentença de Javé que nos dá a certeza do que é viver com ele.

O profeta apresenta uma queixa a Javé. A resposta é aterrorizante. Viria juízo em forma de destruição. Tal resposta o deixa perplexo. Esta perplexidade pela força e poder dos neobabilônicos o deixa diante de questionamentos “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? … Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos? (1.13, 17)”. Diante da força e o poder sem medida, o profeta se vê diante da promessa que é o resumo da vida com Javé: Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. Não importa o tamanho da força. Não importa quão poderosos sejam. Não importa o tamanho da destruição. Tão pouco importa a opinião pública e a forma como os poderes se relacionam. Diante daqueles cujo poder é o seu deus a verdade que permanece é que o justo viverá pela fé.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da fidelidade e sustento em meio ao caos é parte dos ditos de Jesus. Para vermos este ensino recorro a João 17.14-18, um trecho da oração sacerdotal de Jesus:

14Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou. 15Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. 16Eles não são do mundo, como também eu não sou. 17Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. 18Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.

Desta oração de Jesus quero destacar os seguintes aspectos que estão em consonância com a profecia de Habacuque. O primeiro deles é a quem somos enviados. Jesus afirma que nos envia para o mundo. Sim. Somos enviados para o mundo. Para o meio do caos, para o meio de onde seremos perseguidos pelo que cremos, falamos e vivemos. Jesus sabe muito bem que os discípulos enfrentariam problemas sérios de perseguição e violência. Por mais de uma vez os evangelhos relatam que os discípulos enfrentariam oposição forte da sociedade em que vivem. E assim foi no início do cristianismo. No entanto, ao enviar os discípulos ao mundo, Jesus garante a força necessária para enfrentá-lo. Jesus foi enviado ao mundo para viver nele a vontade de Deus. Os discípulos também são enviados para tal e sabem, desde já, que serão odiados pelo mundo. Ainda assim, é para lá que são enviados os discípulos.

O segundo aspecto é o pedido de Jesus que se cumpre em nós: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Santificação é a promessa que se cumpre. Ao santificar, Deus garante sua paz e a força necessária para enfrentar as perseguições do mundo. Jesus coloca os discípulos diante da missão com a palavra da vida, que ele tem dado. Firmados nesta palavra, os discípulos são capazes de enfrentar o mal do mundo no mundo. Jesus não tira os discípulos do mundo, mas sim os envia a ele a fim de enfrentarem o mal com a palavra da verdade. Ao pedir a Deus que os discípulos sejam santificados na verdade, ele os convida a conhecer mais a sua palavra e viver firmados na fé. Diante do mundo, os discípulos podem dizer como Habacuque: eis o soberbo, mas nós, feitos justos por Jesus, vivemos pela fé.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, a resposta de Javé ao clamor do profeta e a resposta de Jesus a esse clamor e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que o sustento de nossas vidas não está nos valores e benefícios que o mundo nos oferece, mas sim naquele que é o Senhor da vida e que nos sustenta realmente: Deus.

Em Habacuque 2.3 temos a promessa de que a palavra de Deus se cumprirá, não importa o tempo que leve. Passamos por aflições que nos consomem e nos deixam profundamente abatidos. Parece que os problemas não vão passar e não vemos solução. Diante de dias assim, a promessa de Deus nos parece apenas palavras que estão escritas num velho livro de uma antiga religião, nós somos convidados por Deus a esperar pelo cumprimento de sua palavra. Diferentemente dos homens, cuja palavras são tidas como não confiáveis, as palavras de Deus se cumprem, mesmo que para nós, nos pareça distante e incompreensível, ela se cumpre no tempo certo, na hora certa, no tempo e na hora de Deus. O tempo dele é o tempo certo. Aguardar no Senhor não deve nos fazer sofrer. Aguardar no Senhor deve nos dar a certeza que não importa quão poderosos sejam os problemas que enfrentamos, ele está conosco e não nos desampara.

Em Habacuque 2.4 temos a promessa de vida. O justo viverá pela fé é mais que um jargão que possamos repetir, é a certeza de que não há nada que garanta vida aos filhos de Javé que não seja experimentado e vivido pela fé. Javé é o Senhor da vida do profeta e é o Senhor de nossas vidas também. Ele é quem determina tudo em nossa vida. Inclusive as tribulações. Eu não sei quão grande é o problema que você enfrenta. Uma certeza eu tenho: pela fé temos vida e paz. Não importa o que seja, como seja e qual seja o problema, se cremos em Deus e confessamos e vivemos sua vontade, pode vir um exército que marcha pela largura da terra, cujo poder é seu deus, não importa, nós viveremos, não morreremos, pois, o justo viverá pela fé. A Bíblia de Genebra, em seu comentário a este texto nos diz o seguinte: “Nos dias de Habacuque, a bênção da vida estava garantida pela fé no Deus que dá vida aos mortos. Nos dias de Paulo, a mesma bênção estava garantida pela fé que focava explicitamente em Jesus, que havia se levantado de entre os mortos (Rm 4.24-25). O mesmo é verdadeiro em nossos dias.” Pela fé temos vida em Cristo, o justo vive pela fé diante de toda e qualquer circunstância.

Conclusão

Diante da promessa de Javé, Habacuque se coloca a esperar. Ele reclamou e a resposta de Javé foi: espere, se tardar, aguarde pois não tardará. A punição pelas transgressões viria, mesmo que não entendesse a maneira como os eventos estavam acontecendo. O profeta Habacuque contemplou o juízo de Deus sobre a vida do povo. O mal e a injustiça parecem ser sempre vantajosos, cheios de benefícios e com grandes ganhos, mas o que o profeta ouve de Javé diante do mal e da injustiça é a verdade que é o cerne da profecia de seu livro: Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé.

Jesus, em sua oração sacerdotal, em João 17, pede que os discípulos sejam livres do mal, mesmo sendo enviados ao mundo. Os discípulos enfrentaram tudo aquilo que Jesus havia dito: perseguições, prisões, açoites e morte. Diante das dificuldades do mundo, eles escolheram testemunhar da graça e do amor de Deus, como fizeram Pedro e João que, após presos, foram soltos tendo como advertência o que nos registra Atos 4.18-21

18Chamando-os, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem, nem ensinassem em o nome de Jesus. 19Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; 20pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Depois, ameaçando-os mais ainda, os soltaram, não tendo achado como os castigar, por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera.”.

Diante das ameaças, Pedro e João preferiram testemunhar do que viram e ouviram.

Hoje, nós somos enviados ao mundo para testemunharmos o que é viver pela fé, mesmo quando somos ameaçados por viver pela fé. O mundo nos oferece constantes oportunidades de sermos abraçados pelo mal. Amizades que nos afastam da vontade de Deus podem nos levar a abraçar o mal, ou podem ser uma rica oportunidade para testemunharmos, pelo poder de Deus e santificados pela palavra dele, do amor transformador de Deus por nós. O mundo sempre tentará nos seduzir, cabe a nós, fortalecidos pela graça e firmados na palavra de Deus, vivermos aproveitarmos as oportunidades de sermos discípulos que vivem pela fé e proclamam o amor de Deus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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