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Os móveis do nosso culto

Os móveis de um ambiente definem o propósito do lugar. Em uma sala dificilmente se terá um armário de cozinha, por exemplo. Ao adentrar o local de culto você vai se deparar com móveis que compõem o ambiente e fazem parte do culto. Vamos conhecer o que era usado no Antigo e Novo Testamento e como eles se relacionam com nosso culto hoje.

O mobiliário do Antigo Testamento

Não vou me deter em muitos detalhes referentes ao Antigo Testamento. Em Êxodo 26 e 27 encontramos a instituição do Tabernáculo e com ele uma lista de móveis e utensílios. Dentre os quais destaco a Arca da Aliança, onde as tábuas da lei eram guardadas e a Mesa dos Pães da proposição. Em 1Reis 6 a 8 temos a narrativa da construção do templo de Salomão e, com ela, alguns objetos do templo são apresentados, dentre os quais destaco novamente a Arca da Aliança, a Mesa dos Pães da proposição e os castiçais.

O mobiliário do Novo Testamento

A Sinagoga é o lugar que primeiro quero destacar no Novo Testamento. A Sinagoga surge, provavelmente, no cativeiro, quando o povo precisava de um lugar para se reunir e, com o templo destruído, surge então a instituição da Sinagoga. Havia um lugar reservador para se guardar os rolos das escrituras, um armário atrás de uma cortina, que era conhecido por “Santo”. Ao longo das paredes ficava os bancos para que o povo se assentasse e na direção do “Santo” havia um, sobre um estrado, uma estante para leitura dos rolos. Além disso, haviam ainda lâmpadas, tapetes e trombetas para comemorações festivas. É neste ambiente que os primeiros cristãos começam a se reunir, bem como no templo, e dele que partem para o segundo lugar que quero destacar que é de casa em casa. Há registros arqueológicos do II século de que as residências cristãs, da região da Galileia, possuíam um cômodo em separado para que ali acontecessem os cultos. Nele haviam mosaicos no chão com ilustrações de peixes e pescas, além de cruz e montes. Quanto ao mobiliário é incerto fazer qualquer suposição. Em Atos temos o relato de Paulo pregando por horas a fio sem menção de púlpito, por exemplo.

O mobiliário hoje

Ao entrar no templo de sua igreja o que você vê de mobiliário? No mínimo terá um púlpito ou estante à frente, os móveis de apoio aos instrumentos musicais, os bancos ou cadeira para você se assentar, entre outros. Na composição do mobiliário existem elementos que são básicos. Para saber quais são precisamos voltar nossos olhos para a herança que o culto cristão recebeu da sinagoga e o que ele acrescentou de novidade. Da sinagoga a liturgia cristã traz a palavra e sua leitura e ensino, como mobiliário, traz a estante de leitura ou púlpito. De elemento novo, a liturgia cristã acrescenta à palavra a Ceia, como mobiliário, insere a mesa.

Até bem pouco tempo, ao entrar em um templo Católico, Ortodoxo, Reformado ou Evangélico as diferenças de mobiliário seriam poucas. Olhando para a nave do templo e o altar, invariavelmente, você veria, em posições diferenciadas, a mesa da comunhão, o púlpito, os bancos. Em algumas igrejas ainda teriam a pia batismal e uma estante para leitura e ofício da Liturgia. Com o advento de Igrejas mais focadas em música, com ministérios mais presentes no dia a dia, muitos dos mobiliários do altar foram deixados de lado e o enfoque recai sobre os músicos e no pregador, que não necessariamente está num púlpito, mas usa uma estante apenas como apoio, quando usa. O que chama atenção nestes casos é a total ausência de mobiliários que remetem ao que há de mais genuíno no culto cristão, a saber, a celebração da Ceia. Se o mobiliário de um ambiente determina o seu propósito, podemos dizer que igrejas que aboliram o uso da mesa como elemento que compõe o altar estão abrindo mão do essencial ao cristão? São leituras que devem ser feitas com cuidado, mas não podemos deixar de dizer que a maneira como os móveis são dispostos num templo ou local de culto dizem muito a respeito da teologia e do ensino bíblico que a comunidade vive.

O que fazer então?

O mobiliário do templo deve ser cultivado e usado como apoio para conduzir o povo a cultuar a Deus. Quando o povo chega para o culto, quando olha para o altar (altar, não palco, palco é no teatro), o que ele vê o conduz a adorar mais genuinamente a Deus? A disposição tradicional calvinista é o mais comum? Nem tanto. Hoje é cada vez mais raro encontrarmos, num templo, o púlpito à esquerda, a mesa ao centro e a pia batismal à direita. Aliás, a presença da pia batismal é cada vez mais rara nos templos. O caminho para se mexer e dispor os móveis do templo é conhecer melhor a história de sua comunidade e como ela se alinha com a tradição reformada e os princípios bíblicos. Tal exercício deve ser feito pelos pastores e pastoras, mas é fundamental envolver a comunidade neste processo.

Não vou aqui pontuar o que sua igreja deve ou não ter de mobiliário à frente, isso vai de cada comunidade e, como já pontuei, reflete o ensino bíblico e teológico da mesma. No entanto, ouso aqui pontuar que a ausência da mesa da comunhão é um dos grandes retrocessos nas novas configurações dos templos atuais. É abrir mão do mais genuíno símbolo cristão presente desde os primórdios do cristianismo, quando se partia o pão de casa em casa. Retrocessos, no entanto, precisam ser avaliados com calma. Nem todo retrocesso é ruim por si só, mesmo que pessoalmente eu creia que a comunidade perca muito com a ausência da mesa.

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

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