Sermões

Nas redes do poder

Mensagem pregada em 17 de abril de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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12Não és tu desde a eternidade, ó Senhor, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó Senhor, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. 13Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? 14Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe? 15A todos levanta o inimigo com o anzol, pesca-os de arrastão e os ajunta na sua rede varredoura; por isso, ele se alegra e se regozija. 16Por isso, oferece sacrifício à sua rede e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriqueceu a sua porção, e tem gordura a sua comida. 17Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos?Habacuque 1.12-17

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie será dividida em duas partes. Num primeiro momento, andaremos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Posteriormente lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três, em separado.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 12: Diante da resposta de Javé, com uma visão alarmante de destruição, agora o profeta se vê diante do juízo que virá com mão forte.

Verso 13: O profeta reconhece a pureza de Javé e se questiona como ele pode se calar diante da injustiça.

Verso 14: Diante da injustiça, o profeta reconhece a incapacidade do homem de governar a si mesmo.

Verso 15: incapaz de governar a si mesmo, o profeta reconhece que somente Javé pode exercer juízo. Assim, o inimigo vem para levantar a todos pelo anzol.

Verso 16: como o inimigo tem como seu deus o seu próprio poder, vide verso 11, eles “oferecem sacrifícios a si mesmos”

Verso 17: diante de tanta morte e destruição fica a pergunta do profeta: Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos?

O clamor do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a resposta do profeta a Javé. Quero aqui encarar dois aspectos do texto. O primeiro, os versos 12-13, onde Habacuque reconhece a soberania e pureza de Javé e o segundo, a narrativa da pesca como imagem do juízo de Javé.

Quando olhamos para os versos 12-13 contemplamos imagens de Javé que são interessantes. Temos o Senhor descrito como eterno, acima do tempo, santo, juiz, puro. Além disso, na expressão “não morreremos” podemos contemplar Javé como doador da vida. Tais imagens nos revela o caráter de Javé como aquele que está acima das marcas temporais, como aquele que não há maldade e sua santidade excede a nossa compreensão, como aquele que exerce o juízo sobre a humanidade e move, para tal, o que for necessário mover. No caso do profeta Habacuque, Javé move uma nação impiedosa para que o juízo venha.

Interessante a forma como o profeta descreve a atuação do inimigo. Ele faz uso da imagem da pesca. Os homens são como os peixes do mar. O inimigo levanta a todos com um anzol e os prende em sua rede. Estas imagens eram comuns aos contemporâneos de Habacuque. A pesca era uma das atividades econômicas da época. A comparação do homem como peixes reduz a figura do ser humano, que foi feito a imagem e semelhança de Deus, a criaturas sujeitas ao homem. Estando sujeitos aos homens, e não a Deus, eles são dominados, arrastados e consumidos para o prazer daquele que o dominam.

A imagem do sacrifício a si mesmo ecoa fortemente. O verso 16 expressa como o ser humano é capaz de idolatrar a si mesmo. O sacrifício oferecido às suas armas e o incenso ao seu método de dominação nos revelam como eles amam a guerra e suas consequências, entre elas os despojos de suas conquistas que os tornam mais ricos e poderosos. Riqueza e poder movem o coração do homem não é de hoje e o profeta faz uso de uma imagem comum de seu tempo, a pesca, para mostrar como o povo seria dominado e consumido, mesmo que naquele momento o povo estivesse desfrutando dos benefícios que o poder e a riqueza lhes davam. A segurança do poder e da riqueza não são nada, é isto que o profeta está dizendo ao povo.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da dependência de Deus e da pesca como imagem da ação do Pai está presente na vida de Jesus. Vejamos um texto conhecido como a pesca maravilhosa, em Lucas 5:

4Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar. 5Respondeu-lhe Simão: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes. 6Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompiam-se-lhes as redes. 7Então, fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase irem a pique. 8Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador. 9Pois, à vista da pesca que fizeram, a admiração se apoderou dele e de todos os seus companheiros, 10bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. 11E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram.

Lucas nos apresenta uma cena interessante. Pedro havia cedido o barco para Jesus ensinar. Ao final, depois de uma noite de trabalho sem pescar nada, Jesus manda Pedro lançar as redes. Ele reluta, mas faz. Ao fazê-lo, precisa de ajuda para levantar o peso das redes. Ele se prostra diante de Deus e o chama a ser pescador de homens. Jesus usa a imagem da pesca para dizer o que Deus faria na vida de Pedro: ser um instrumento de Deus para a vida. Há duas lições que quero destacar desse momento e que têm relação direta com nosso texto de Habacuque.

A primeira lição é a da confiança em Deus. Assim como Habacuque confia que não morrerá diante de tamanha força que vem sobre o povo, mesmo relutante, Pedro confia na palavra de Jesus e lança as redes. Pode não parecer muito lançar as redes, mas para quem é pescador e sabe o horário para pesca é um problema. Mas é sob a palavra de Jesus que Pedro lança as redes. Diante do impossível, tanto Habacuque quanto Pedro, confiam em Deus.

A segunda lição é o reconhecimento. Diante da visão de destruição, Habacuque reconhece quem é que governa sobre todas as coisas: Não és tu desde a eternidade, ó Senhor, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Diante da visão de vida e garantia de sustento e alimento, Pedro reconhece quem é que governa todas as coisas e por isso se vê indigno diante de Jesus: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador. Diante do que Deus é e faz não há outra alternativa a não ser reconhecer quem é o Senhor de nossas vidas.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, a resposta de Javé ao clamor do profeta e a resposta de Jesus a esse clamor e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que não podemos nos calar diante das redes do poder, mas sim anunciar e reconhecer a ação de Deus em nossas vidas e na história, mesmo que para isto tenhamos que responder a perguntas que são difíceis.

Habacuque 1.13 apresenta um dilema teológico que persegue o profeta e se apresenta a nós ainda hoje: como pode um Deus santo permitir que a violência e corrupção se manifeste de maneira tão intensa? Como pode um Deus puro permitir que uma nação tão sanguinária seja instrumento de justiça? As respostas a estas questões carecem de serem respondidas e não podem ficar ecoando no vazio. Não podemos responder com frases de efeito ou de maneira reducionistas. Tal resposta merece ser dada diante do contexto em que vivemos. Para Habacuque, o contexto nos apresenta algumas pistas: a infidelidade do povo, a falta de uma vida centrada em Deus, uma religiosidade vazia de significado e repleta de desejos pessoais são apenas algumas delas. Nós, em nosso tempo e em nossas realidades temos nossos contextos que apontam como a violência de nossos dias são consequências de nossas atitudes.

Habacuque 1.16 nos apresenta a imagem do sacrifício que os inimigos fazem para si mesmos. O sacrifício era uma parte da vida religiosa que o povo vivia. E foi até nos tempos de Jesus, quando os cristãos deixam de sacrificar. O que Habacuque está dizendo ao povo é que eles seriam consumidos como sacrifício de um povo. É como se aqueles inimigos viessem, após um ataque, ao nosso templo e fizessem um culto de louvor e adoração ao seu poder. Aliás, sem ares de guerra, mas com igual força e poder, estão aí as megas igrejas que não nos deixam esquecer como é a guerra por poder e mais gente dentro de seus templos. Líderes que exibem seu poderio de agregar pessoas, esbanjando dinheiro e poder nas esferas religiosas e também política. Mas não precisamos ir para as megas igrejas para encontrar pessoas que cultuam mais suas vontades e qualidade do que ao Deus vivo. Pessoas que se julgam essenciais para esta ou aquela função dentro da Igreja e que se esquecem a quem pertence a Igreja e a quem servimos. Diante de tais práticas precisamos lembrar e evocar sempre quem é o soberano em nossas vidas e a quem cultuamos e servimos: ao Deus vivo.

Conclusão

O profeta Habacuque, diante da resposta de Javé, confessa que a vida está nas mãos daquele que rege o tempo, a história e as nações. O profeta usa uma narrativa com elementos da pesca para mostrar ao povo como os Neobabilônicos dominariam e sujeitariam a nação. Eles seriam castigados pelas mãos dos neobabilônicos. Habacuque temeu por Deus usar um povo mais ímpio que Judá para castigá-la. Mas os neobabilônicos não sabiam que seriam usados por Javé para ajudar os judeus a retornar a ele, e que o orgulho da Babilônia por suas vitórias seria a sua ruína. O mal é autodestrutivo e nunca está além do controle de Deus. O Senhor pode usar qualquer instrumento incomum que escolher para nos corrigir. Quando merecemos o castigo ou a correção, como podemos reclamar do tipo de “vara” usada por Deus? É ele quem exerce o juízo e nos conduz em direção à sua vontade. O Deus gracioso é Deus justo e sofremos as consequências de nossas escolhas equivocadas.

Jesus, ao chamar Pedro, nos mostra como a obediência e o reconhecimento de nossa condição de pecadores são essenciais para nossa relação com Jesus. Não somos chamados por Jesus a lançar as redes do poder que levam à destruição e morte, mas sim a lançar as redes da graça de Deus que nos torna pescadores de homens. Diante das redes do poder, que dominam, prendem e matam, devemos clamar pela misericórdia de Deus, reconhecendo que seu juízo recairá sobre todos os que praticam a injustiça. Jesus nos convoca para a vida. Pecadores que somos, reconheçamos nossa condição e nos coloquemos diante de Jesus para sermos aqueles que irão anunciar a vida que só Cristo pode nos dar.

Hoje, nós somos convidados a anunciar que as redes do poder não são capazes de deter a mão de Deus. Também somos chamados a reconhecer que Deus exerce sua justiça usando quem e o que ele bem entender. Diante dos poderes e suas ações que dominam, prendem e matam vamos erguer nossas vozes e proclamar que Deus é quem rege tudo e que ele nos quer ao seu lado, vivendo sob sua vontade. Obediência é deixar de lado as nossas vontades, as nossas riquezas e poderes, e passarmos a viver a vontade de Deus. Reconhecer que somos pecadores é reconhecer que nada podemos fazer diante da grande e maravilhosa graça de Deus. Povo de Deus, é tempo de levantar-se e reconhecer que, por mais que os poderes deste mundo tentem nos prender em suas redes, nós pertencemos àquele que rege tudo, absolutamente tudo, inclusive nossa nação.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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