Sermões

Contra os poderes e suas violências

Mensagem pregada em 10 de abril de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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5Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos e desvanecei, porque realizo, em vossos dias, obra tal, que vós não crereis, quando vos for contada. 6Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas. 7Eles são pavorosos e terríveis, e criam eles mesmos o seu direito e a sua dignidade. 8Os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, mais ferozes do que os lobos ao anoitecer são os seus cavaleiros que se espalham por toda parte; sim, os seus cavaleiros chegam de longe, voam como águia que se precipita a devorar. 9Eles todos vêm para fazer violência; o seu rosto suspira por seguir avante; eles reúnem os cativos como areia. 10Eles escarnecem dos reis; os príncipes são objeto do seu riso; riem-se de todas as fortalezas, porque, amontoando terra, as tomam. 11Então, passam como passa o vento e seguem; fazem-se culpados estes cujo poder é o seu deus. Habacuque 1.5-11

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie será dividida em duas partes. Num primeiro momento, andaremos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Posteriormente lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três, em separado.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 5: Diante do clamor do profeta, Javé responde. Inicia sua resposta mandando o profeta ver, olhar e se maravilhar com o que será feito, pois nunca o fora antes;

Verso 6: Deus anuncia a chegada dos caldeus. Um povo que é descrito como amargo e impetuoso. Cuja força massacra o vê pela frente e age firmado na injustiça.

Verso 7: Eles são terríveis. Eles são donos de sua própria justiça e buscam se fortalecer destruindo quem se coloca à sua frente.

Verso 8: eles agem rápido e eficazmente, são determinados em suas ações.

Verso 9: suas ações têm como meta a tomada de terras e a violência é a determinação de suas investidas. A força de suas investidas é capaz de tomar o povo sem deixar chance para reação.

Verso 10: não há diplomacia diante de suas ações. Eles não querem diálogo, eles querem dominar.

Verso 11: eles agem como senhores de suas vidas e por isso o próprio Javé sentencia que eles endeusam o poder que têm.

O clamor do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a resposta de Javé ao clamor do profeta. A profecia feita em diálogo não é novidade na literatura profética. Habacuque, no entanto, abre mão dos ditos de transferência de voz, como “disse então o Senhor” e faz o diálogo direto. Feita então a queixa nos versos 1 a 4, agora Javé está respondendo ao profeta e sua resposta não é nada agradável. O que vem aí é juízo sobre a infidelidade em forma de destruição. A mão de Javé virá pesadamente sobre seu povo e não há como escapar. Quero aqui destacar dois aspectos desta resposta, o povo escolhido para execução do juízo e a força deste povo.

Caldeus. É na região de onde saíra Abraão, Ur dos Caldeus, que nasce o império que viria a ser conhecido como. Neobabilônico. São eles que são levantados por Javé para serem usados como juízo. Javé é o Senhor da história, do tempo, dos reinos e ele usa a história, o tempo e os reinos para fazer cumprir sua vontade. Assim, Javé usa os caldeus para cumprir seu juízo sobre seu povo. A Babilônia sempre é referida como a inimiga do povo de Deus. Para lá o povo é levado após a invasão que aqui está sendo dita.

A força deste exército é descrita de maneira grandiosa. Não deixam nada passar, pois marcham pela largura da terra. São dominadores ferozes, apoderando-se de tudo o que veem pela frente. São extremamente violentos, fazendo eles mesmos a sua própria justiça e executando os inimigos ao seu bel prazer. São obcecados por dominar, não interessa quem está sendo vencido, já querem dominar mais e mais. São orgulhosos de seus poderes, ignoram a diplomacia e destroem as fortalezas. Não à toa Javé diz que o deus teste povo é o poder. Eles são poderosos e fazem da força seu meio de conquista e vida.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da poder e violência é abordada por Jesus. Vejamos como exemplo o episódio em que os escribas e fariseus chegam até Jesus trazendo uma mulher pega em adultério:

1Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava. 3Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, 4disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. 5E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? (João 8.1-5)

Jesus havia saído de uma situação de violência. Guardas foram prendê-lo e não o levaram. Saindo dessa situação ele segue para o monte para orar e depois desce para o templo para ensinar. É neste momento que os escribas e os fariseus chegam para confrontá-lo. Eles querem saber se Jesus irá cumprir a lei de Moisés e apedrejar esta mulher. Eles vêm respirando violência. Eles vêm querendo o rigor da lei. A violência religiosa. A violência de gênero. A violência pela violência. Diante da violência proposta pelos escribas e fariseus Jesus se cala e permanece escrevendo na terra com o dedo. Ele passa a pensar na pergunta. Após a insistência dos questionadores ele responde uma sentença que se tornou bastante conhecida dos cristãos: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra.

O poder religioso dava o aval àqueles homens para que eles interpretassem a Lei de Moisés segundo seus interesses. À violência dos escribas e fariseus Jesus apresenta a graça que nivela todos como pecadores e carentes do amor de Deus. O poder religioso permitia que eles apedrejassem, matassem e alienassem qualquer pessoa que não seguia seus preceitos interpretativos da Bíblia. Por isso, após haver tentado prender Jesus, eles tentam pegá-lo na Lei, para ter do que acusá-lo. Jesus, no entanto, diante do poder religioso e da violência a que ele estava sendo intimado a chancelar, coloca todos no mesmo pé diante da graça de Deus. Diante do clamor da injustiça, a justiça de Deus se manifesta na graça.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, a resposta de Javé ao clamor do profeta e a resposta de Jesus a esse clamor e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que diante do poder e da violência a resposta está na graça de Deus.

A graça aplaca os poderes. Os poderes deste mundo vêm marchando pela largura da terra, são implacáveis em difundir seus valores e em impor seus interesses. Os poderes deste mundo querem dominar, consumir e descartar. A graça de Deus vem e diz que a justiça se dá na manifestação do amor do Pai. Se os poderes deste mundo querem nos dominar, nós respondemos com a graça de Deus, que já nos domina e que venceu os poderes e a violência deste mundo. Quando você se deparar com poderes que querem te impor valores que vão contra os valores do Reino, agarre-se à graça de Deus e enfrente pelo poder do Espírito Santo, sabendo que a tribulação existe para produzir perseverança e esperança em nós.

A graça revela a violência. Diante da violenta cena descrita por Javé em Habacuque ou diante da violência prestes a acontecer no episódio da mulher adúltera a graça de Deus se apresenta revelando a violência que viria e mostrando que a justiça de Deus se impõe diante da destruição iminente. Em Habacuque, a graça se manifesta nos versos seguintes: Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Diante de tanta barbárie a caminho, a certeza do profeta é a vida. Em João 8, a graça se manifesta de igual modo nos versos seguintes: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais. Diante da falta de ação dos acusadores, por serem eles tão pecadores quanto a mulher pega em adultério, a graça perdoa, liberta e instrui a seguir o caminho da transformação. Quando você se deparar com a violência na sua vida lembre-se que em Cristo Jesus há vida e liberdade.

Conclusão

O profeta Habacuque recebe como resposta de Deus uma imagem de violência e destruição como mão poderosa a exercer o juízo. Deus responde ao profeta mostrando que fatos incríveis aconteceriam: Judá seria tomada como escrava; O Egito, potência mundial, cairia; o Império Assírio sucumbiria a ponto de desnortear seu povo e os Neobabilônicos assumiriam o poder mundial. Tamanha visão levaria qualquer um ao desespero. Mas o profeta confia na vida e na providência de Javé. Esta confiança faz com que o profeta, mesmo estarrecido diante da violência, reconheça que Javé é o Senhor e ele é o Senhor da vida.

Jesus nos apresenta uma maneira de responder a violência. Quando ele pede que somente aquele que não tem pecado atirasse a primeira pedra, um a um dos escribas e fariseus vão se retirando. O ensino de Jesus nos leva a examinar nossas vidas e reconhecer nossa natureza pecaminosa, que conduz ao desejo de poder e à violência, e nos conduz ao arrependimento de nossos pecados, nos levando a denunciar a violência e ajudar ao invés de ferir, amar ao invés de odiar, acolher ao invés de afastar. Jesus pede que sejamos instrumentos da graça a abençoar e anunciar a transformação de vida que ele nos oferece.

Hoje, nós somos convidados a anunciar a graça de Deus diante das violências ao nosso redor. Não precisamos ir para zonas de guerra, basta saber que em nossa região há tanta violência acontecendo e tanta gente carregando o nome de Deus calada. Não se cale diante da violência, clame e atente para a resposta de Deus. Ele move a história, o tempo e as nações. Ele é o Senhor de tudo. Os poderes deste mundo querem o impossível: afastar o crente fiel da graça de Deus. Sejamos audaciosos na proclamação da graça e na denúncia da violência que nos cerca. Aqueles que são alcançados pela graça de Deus se espantam e se indignam diante da violência, mas jamais deixam de crer na mão poderosa de Deus que nos garante vida.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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