Sermões

Indignação, clamor e denúncia

Mensagem pregada em 3 de abril de 2016 na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP. Você pode assistir esta mensagem no vídeo, no fim do texto.


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1Sentença revelada ao profeta Habacuque. 2Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? 3Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita. 4Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida. Habacuque 1.1-4

 

Corrupção: misericórdia e juízo em Habacuque é uma serie de mensagens baseadas no livro do profeta Habacuque. Nosso objetivo é lançar os olhos sobre o texto do profeta e a circunstância que o cerca e, em Cristo Jesus, olharmos para os nossos dias e vermos como Deus nos aponta a direção de como agir diante da corrupção. Em cada mensagem mostraremos o cenário em que aqueles versículos estão inseridos; qual é o clamor do profeta; qual a resposta que Jesus, por meio de seus ensinos, apresenta e qual a mensagem que fica para nós. A presente serie será dividida em duas partes. Num primeiro momento, andaremos durante cinco domingos pelos dois primeiros capítulos de Habacuque. Posteriormente lançaremos nossos olhos sobre o capítulo três, em separado.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Deus a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos data-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso. Esta parte é um Salmo de lamentação sobre a situação que passa Judá diante da invasão dos caldeus.

O cenário

Vamos olhar versículo a versículo nosso texto e tentar compreender o cenário que cerca o texto.

Verso 1: A sentença é revelada ao profeta Habacuque. Pouco se sabe sobre o profeta que dá nome ao livro. O termo hebraico que abre a profecia remete a um lamento passado. Mas o verso seguinte nos coloca diante do lamento pelo que virá.

Verso 2: Até quando? É o grito do profeta. O padre Domingo Sávio da Silva, em seu livro Habacuque e a resistência dos pobres nos elucida este segundo verso da seguinte maneira: “o clamor do profeta não surge agora nem se restringe a esse tempo presente, mas alonga-se até o passado e nele enraíza-se: o profeta continua gritando”.

Verso 3: Javé está revelando ao profeta a visão. O que Javé vê é imposto ao profeta que reage clamando. Opressão, destruição e violência são as cenas contempladas pelo profeta. Ao contemplar, clama. Ao clamar, o ímpio reage suscitando litígio.

Verso 4: diante da visão, o profeta contempla as consequências da corrupção. A lei se frouxa. A visão de Habacuque sobre a realidade de Judá é de que a lei não é seguida, mais que isso, por conta da frouxidão da lei, a justiça não é vista e mais, os justos estão cercados por todos os lados e por isso a justiça é manipulada.

O clamor do profeta

Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o clamor do profeta.

Habacuque se vê diante de uma visão da realidade de Judá. Embora a temática do livro seja a invasão de Judá, aqui está em foco o que antecede esta visão. A situação da sociedade era calamitosa. O profeta contemplava a infidelidade a Deus e isto o fazia clamar por socorro. Ele contemplava a visão dada por Deus e em reação à visão clamava por socorro. No entanto, seu clamor parecia não ser ouvido. “Até quando” é a expressão do desespero do profeta diante da injustiça. O clamor do profeta revela que Deus julga e condena não só um império, mas toda e qualquer forma de opressão.

Violência! O grito do profeta resume a violação deliberada dos direitos do povo de Deus que era oprimido pelos judeus poderosos. A violência que assolava Judá, antes da invasão dos caldeus, não era somente violência física. Trata-se da violência social diante dos direitos das viúvas e estrangeiros. Trata-se da violência religiosa, na negligência à observância das leis de Deus e do culto no templo. Trata-se da violência financeira, na falta de justiça na cobrança de impostos. A dor do povo, contemplada não de uma vez, como numa imagem estática, mas sim no dia a dia, conforme ia acontecendo, o profeta identificava ali a violência e clamava a Deus.

Quando o profeta fala da lei que se afrouxa ele está falando da lei usada para beneficiar apenas um lado, não sendo usada para manifestar a justiça. Assim, a justiça fica oculta e o que se vê é o opressor sempre se valendo sobre o oprimido. Quando o profeta fala que o perverso cerca o justo, ele faz referência àqueles que militam contra os justos, fazendo-os recuar e distorcendo a justiça, a fim de beneficiar-se dela. Os que detém a justiça em suas mãos são corrompidos pelos poderosos para legitimar suas ações.

A resposta de Jesus

O que Jesus tem a nos dizer diante do clamor do profeta? Não há ligação direta do texto de Habacuque com os evangelhos, no entanto a temática da opressão, injustiça e violência faz parte do discurso de Jesus. Quero recorrer às palavras de Jesus no Sermão do Monte, a parte final do trecho conhecido como bem-aventuranças. Vamos ao texto de Mateus 5.10-12:

10Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 11Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. 12Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.

A mensagem de Jesus aqui é para que não nos curvemos diante da corrupção. Não desistam da justiça, não baixem as mãos, não curvem suas cabeças, não desistam de lutar pela igualdade, pois de vocês já é o Reino de Deus. Não desistam jamais de construir o Reino de Deus. Vão levantar falsas acusações, vão perseguir, jogar no fundo de uma cela, vão forjar testemunhas e provas, mas não desistam, não fiquem tristes, pelo contrário, cantem e dancem. Sim! Cantem, dancem, pois, pessoas já sofreram antes de vocês, seja na mão dos opressores caldeus, seja nas mãos dos opressores romanos, seja nas mãos da sociedade corrupta de hoje! Cantem e dancem! Alegrem-se! Exultem! Pois o Reino de Deus, é de vocês!

Diante de um cenário de completa corrupção e injustiça, Jesus aponta para a fidelidade ao Reino de Deus. A infidelidade ao Reino promove corrupção e violência. A fidelidade ao Reino de Deus nos fará suportar a corrupção e violência. Suportar não calados, mas denunciando a infidelidade do povo de Deus diante do cenário que se vive. Sendo perseguidos por causa da justiça, sendo injuriados por fidelidade a Jesus, o discípulo deve ter a certeza que está no caminho do Reino e cumprindo sua função como cidadão do Reino de Deus.

A mensagem para nós

Vimos o cenário, o clamor do profeta e a resposta de Jesus a esse clamor e agora podemos perguntar: o que fica de mensagem para nós? Fica a lição de que diante da corrupção temos três atitudes a tomar: indignação, clamor e denúncia.

Indignação. A maldade e injustiça se apresentam diante de nós. Para aqueles que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador, não há como ficar indiferente diante da injustiça. Não se trata de uma indignação seletiva, mas completa. Diante do cenário político atual tenho assistido indignações seletivas, apenas as denúncias para uma vertente política é que contam. Não, o cristão deve olhar para a corrupção e identifica-la e lutar contra ela em todas as esferas da sociedade, não apenas na partidária. Não confunda indignação pela corrupção com opinião político-partidária. A indignação brota daqueles que confessam Jesus como Senhor e Salvador para proclamar o Reino de Deus. A indignação é contra tudo o que milita contra o Reino de Deus, e não contra o programa de governo deste ou daquele partido.

Clamor. Diante da revelação Habacuque se indigna e, indignado, clama! Ele não suporta mais ver a dor do povo. E nós, cristãos do Século XXI, temos clamado a Deus diante da violência dos tempos que vivemos? Por quantos casos de violência social, religiosa e pessoa você passa e fica calado? Qual a sua conduta diante da corrupção? Clame a Deus por transformação, mas clame principalmente por misericórdia e juízo sobre nossas vidas e nossa nação. Tem muito crente achando que vai mudar a realidade da corrupção no país com postagem no Facebook. Misericórdia, irmão. A realidade da corrupção em nosso país será mudada quando passarmos a clamar por justiça e misericórdia de Deus em nossas vidas. Este clamor levará à transformação em nossas vidas. Vidas transformadas se indignam diante da injustiça, clamam por intervenção divina e denunciam a violência.

Denúncia. O verso quatro é a denúncia de Habacuque diante da indignação de um cenário de corrupção. A justiça está corrompida. O evangelho nos coloca diante da nossa realidade e nos leva a encontrar o que não é Reino de Deus e enfrentar, confrontar e transformar. Lembre-se das palavras de Jesus: Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Ao denunciar as injustiças da vida prepare-se para ser perseguido, injuriado e maldito pelos outros. Mas o que temos é a glória de Deus para nós. Grande é a recompensa dos que são perseguidos. Não são recompensas terrenas, mas antes, a graça de Deus superabundante em nós.

Conclusão

Indignado diante da violência e corrupção que contempla, Habacuque clama, derramando seu coração diante de Deus. Não permita que a injustiça, a corrupção e a violência lhe façam duvidar do Senhor ou rebelar-se contra Deus. Diante da mensagem de Habacuque para nós, aprenda que os planos e propósitos de Deus não são imediatistas, mas se revelam e acontecem a longo prazo. Você consegue perceber como Deus age constantemente em sua vida? Consegue perceber a multiforme graça dele se revelando em sua vida nas mais diversas maneiras? Diante das injustiças da vida não se abata, mas permaneça fiel a Deus. Indigne-se, clame e denuncie a injustiça. Faça sempre firmado na vontade de Deus e na Palavra dele.

Se você passa por momentos difíceis em sua vida, saiba que Deus não está alheio ao seu sofrimento. Atente para aquilo que Deus tem revelado em sua vida que é fruto da corrupção. Indigne-se e coloque-se diante de Deus pronto para ser alvo de sua misericórdia e justiça. A graça de Deus se derrama em nós e nos convida a viver a sua vontade. Busque a vontade de Deus. Seja fiel à suas ordens. Viva certo de que em Cristo a corrupção pode e deve ser enfrentada em todos os momentos e circunstâncias.

Jesus disse, no sermão do monte, que aqueles que buscam e vivem a justiça serão perseguidos, mas que isto não deve nos desanimar nem nos desmotivar, pois o Reino de Deus lhes pertence. O que você tem denunciado? Como você tem vivido a justiça de Deus em sua vida? Convido você a se indignar mais. A clamar mais. A denunciar mais. Contemple a corrupção ao seu redor e saiba que fomos chamados e enviados a denuncia-la. Saiba que a busca e a luta pela justiça são a marca daqueles que são transformados pelo poder do Espírito Santo e que é nosso dever ser testemunhas vivas do poder de Deus em transformar o que antes era corrupto e perdido em salvação, justiça e misericórdia. Indignação, clamor e denúncia são marcas de quem é transformado em discípulo de Jesus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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