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As roupas no nosso culto

O objetivo deste artigo não é o de construir um manual de vestimenta, mas, antes, pretendo refletir sobre como as roupas fazem parte do conjunto do culto e como elas influenciam na celebração de nossas igrejas. Vou tratar aqui do conceito de apropriado, de três diferentes “estilos” que tenho visto e do uso da toga, estola e colarinho clerical.

Rev. Rubem Samuel Nieto (IPI Jardim América de Araraquara), Rev. André Machado Lobo (IPI Jardim das Oliveiras de Araraquara) e Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo (IPI de Araraquara) celebrando juntos na Quinta-feira Santa de 2016
Rev. Rubem Samuel Nieto (IPI Jardim América de Araraquara), Rev. André Machado Lobo (IPI Jardim das Oliveiras de Araraquara) e Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo (IPI de Araraquara) celebrando juntos na Quinta-feira Santa de 2016

O conceito de apropriado

“Não é apropriado que o pastor se vista de maneira desleixada, vamos presenteá-lo com um bom terno”.

Esta frase foi dita a um seminarista amigo há muito tempo e ele achou estranha, visto que se fazia presente aos cultos sempre de calça e camisa social e usando gravata. Mas ele estudava para ser pastor e, na cabeça da pessoa que lhe disse a frase acima, não se pode conceber um pastor sem terno.

O que é apropriado? Este conceito é relativo. O fato é que nos acostumamos a observar como nossos líderes se vestem e passamos a acreditar que tal vestimenta é o padrão e o apropriado a toda e qualquer igreja. O apropriado não é ditado por um manual de regras, mas sim pela comunidade. O que se deve ter em mente é que as roupas vão apontar para o que queremos comunicar. É o que Steve Turner, em “Engolidos pela cultura pop” (Editora Ultimato), nos diz:

“…as roupas sempre tiveram duas funções simultâneas. Uma diz respeito às necessidades de proteção, aquecimento e decência … a outra função diz respeito à comunicação, pois usamos roupas para que as pessoas saibam como nos sentimos em relação a nós mesmos, o que ansiamos, no que cremos e, em último caso, como nos sentimos com o mundo em nossa volta e qual nosso lugar nele” (p.116)

Portanto, ao nos dispormos a cultuar devemos nos preparar para transmitir, também com nossas roupas, a mensagem do Evangelho.

Litúrgico, tradicional, contemporâneo

Do que tenho conhecido e caminhado pela tenho identificado três estilos litúrgicos que se refletem nas roupas usadas no culto. As questões de liturgia serão tratadas em um artigo posterior, no momento, quero me deter nas questões das roupas.

Em uma temos um/a pastor/a estaria toga com uma estola na cor litúrgica. O coral também uma toga com um detalhe na cor litúrgica. Os presbíteros de terno e gravata ou, em raros casos, usando também uma toga simples. Em outra igreja o pastor estaria de terno e gravata, no caso de ser uma pastora, de tailleur. Presbíteros estariam de terno e gravata ou, em alguns casos, apenas de camisa e calça social. O coral, de social. Em outra igreja o/a pastor/a estaria vestido num estilo social-esportivo. Os presbíteros e o coral da mesma forma.

Litúrgico, tradicional, contemporâneo. Tais definições são caricatas por si só mas refletem um pouco da diversidade das comunidades que temos em nosso meio. Não defendo uma uniformização institucional em nossas Igrejas locais, no entanto, defendo que o respeito e o diálogo entre os estilos devam existir. Apenas para ilustrar: na IPI de Araraquara, SP, costumo, em cultos em que se celebre os sacramentos, usar toga com estola. Os presbíteros não participam de terno e gravata ou tailleur nestas ocasiões. Há uma mescla de estilos. Em domingos que não faço uso da toga, costumo usar camisa de colarinho clerical e calça social. Tudo é fruto de observação de como a comunidade cultua e principalmente de se educar a igreja a conviver com os estilos diferentes.

Toga, estola, colarinho clerical

Pessoalmente sou defensor do estilo que definiria como “litúrgico”. Historicamente, os reformadores calvinistas abriram mão das vestimentas carregadas de cores das missas católicas para o uso de uma simples toga preta. Este traje evoluiu para uma toga, genebrina, com mangas prolongadas até o pulso. O uso da toga e estola foi muito bem explicado na revista Visão, ano 16, #49, publicada pela 1ª IPI de São Paulo:

“O uso da toga genebrina pelos pastores das igrejas presbiterianas é comum no Brasil … A toga simboliza uma relação de ensino e aprendizado com os membros da Igreja … O uso da estola sacerdotal é costume originário da igreja presbiteriana escocesa, de onde viemos, que, por sua vez, manteve a tradição da igreja apostólica. Essa tradição representa o jugo do Senhor Jesus, que é suave”. (p.7)

Já o colarinho clerical é uma tradição que os anglicanos iniciaram, pela facilidade de seu uso com as camisas do dia a dia. No entanto, é na igreja escocesa que ele ganha força no uso em culto. Igrejas Reformadas em todo o mundo fazem uso corrente dele e é possível identificar, na história da IPI do Brasil, o seu uso. Em uma foto do Sínodo Presbiteriano Independente de 1934 é possível destacar ao menos cinco pastores de colarinho clerical (sem contar os que estão com gravata borboleta). Trata-se de um estilo presbiteriano e seu uso remete à função pastoral da pessoa que o usa. Para se aprofundar sobre o tema recomendo o artigo “Sobre togas e túnicas” do pastor presbiteriano Eduardo Henrique Chagas: http://goo.gl/X0KDxA

Concílios

Cada pastor/a tem o seu conceito e sua maneira de lidar com as roupas para uso no culto. Entendo que cada comunidade deve se expressar de acordo com sua história. Também entendo que em nível institucional (Presbitérios, Sínodos e Assembleia Geral) as celebrações devam refletir a diversidade litúrgica e as vestes preservarem a história e tradição da Igreja. Nada impede um culto contemporâneo com vestes litúrgicas. Um não anula o outro, ao contrário, estabelecem o diálogo entre a tradição e os tempos atuais, mostrando que a mensagem do evangelho e a forma da Igreja cultuar são vivos e presentes na história e na vida do povo.

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

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