Sermões

Açoites

Na Sala da Morte. Poderia aqui recorrer ao Gólgota, mas quero me deter a um ambiente que é descrito por todos os evangelistas de forma subjetiva: “…e, após haver açoitado a Jesus, entregou-o para ser crucificado”. A sala dos açoites. A sala onde vemos o sofrimento de Jesus. Os romanos tinham um chicote próprio para açoites, que era sempre executado de maneira cruel. Um chicote multirretorcido tendo na extremidade pontas de ossos afiadas. A força e a impiedade com que eram açoitados os condenados os levavam a morte ainda aqui, antes da crucificação. Jesus passou por esse sofrimento e foi levado para a cruz. É preciso ver o sofrimento de Jesus para compreender que nosso pecado não foi perdoado de forma barata, mas a preço de sangue.

Jesus havia sido preso. Perante o Sinédrio fora questionado e sofrera com a violência. Dali, mandado a Pilatos, a Herodes e de volta a Pilatos que decide lavar as mãos e jogar para o povo a responsabilidade de escolher entre Barrabás e Jesus. Uma vez preterido, Jesus é entregue para os açoites. Geralmente dois oficiais romanos, portando um chicote cada, alternavam os açoites, de maneira a atingir toda a costa do condenado, que ficava no chão, curvado. Jesus está ali, no chão, pronto para começar a receber os açoites. Não sabemos ao certo quantos açoites Jesus recebera. Sabemos que não fora o mesmo previsto na maioria dos açoites romanos, que levavam diretamente à morte. Há quem defenda que, sendo Jesus judeu e tendo sido julgado e condenado na Judéia, ele tenha recebido os 39 açoites previstos em Deuteronômio 25. No entanto, não podemos afirmar quantos foram. Sem querer especular, quero convidar você a olhar comigo estes açoites.

Os guardas estão a postos. Jesus, prostrado, aguarda de costas o primeiro açoite. Os soldados giram seus chicotes, fazendo-os estalar no ar e no chão repetidamente, causando terror em quem está ao redor. Posicionam-se ao lado de Jesus. Se entreolham. Um deles acena a cabeça para o outro, dando o aval para que ele comece.

UNUS! O chicote atinge as costas de Jesus fazendo com que sua ponta se encrave na lateral de seu corpo, rasgando-lhe a carne quando puxado de volta. Jesus urra de dor.

DUO! Agora, da mesma forma, do outro lado.

TRES! Mais um urro de dor.

QUATTUOR! Mais um açoite.

QUINQUE! Mais um rasgo.

SEX! Consegue sentir? Não?

SEPTEM! Sentiu agora a dor?

OCTO! Sentiu agora o rasgo?

NOVEM! Este açoite, sim, este açoite era para mim, era para você.

DECEM! Se lembra quando poderia ter dito a verdade mas mentiu?

UNDECIM! Mais um que era para você e para mim.

DUODECIM! Sinta esta dor! Sinta este rasgo na pele!

TREDECIM! O açoite atinge o meio das costas de Jesus, rasga-lhe inteira a pele de cima para baixo. Consegue sentir?

QUATTUORDECIM! Se lembra daquele olhar de desejo para o que não deveria ser desejado?

QUINDECIM! Jesus se curva ainda mais. Sinta a dor. Sinta a pele rasgando.

SEDECIM! O sangue começa a se misturar com o suor. A pele arde, mas o que é o ardor diante dos rasgos, da força dos açoites?

SEPTENDECIM! Os olhos dos soldados brilham, começam a sentir prazer no que fazem. Pesam a mão ainda mais nos chicotes.

DUODEVIGINTI! Risadas ecoam da boca dos soldados!

UNDEVIGINTI! Mais gargalhadas!

VIGINTI! Palavras de deboche saem do povo ao redor!

VIGINTI UNUS! Consegue sentir os ossos, pontiagudos, entrando e saindo da pele rasgando e jorrando sangue ao redor de Jesus?

VIGINTI DUO! Se lembra de Pedro negando-o?

VIGINTI TRES! E de quando o negastes?

VIGINTI QUATTUOR! Se lembra da traição de Judas?

VIGINTI QUINQUE! E de quando o traístes?

VIGINTI SEX! Se lembra do abandono dos demais discípulos?

VIGINTI SEPTEM! E de quando o abandonastes?

VIGINTI OCTO! Qual o peso do seu pecado?

VIGINTI NOVEM! Consegue sentir?

TRIGINTA! Ainda não?

TRIGINTA UNUS! Quantos açoites mais teremos que ver e imaginar para perceber a dor que o nosso pecado causou em Jesus?

TRIGINTA DUO! Foi por mim.

TRIGINTA TRES! Foi por você!

TRIGINTA QUATTUOR! Foi por amor!

TRIGINTA QUINQUE! Foi com sofrimento

TRIGINTA SEX! Foi com dor!

TRIGINTA SEPTEM! Ouça o chicote!

TRIGINTA OCTO! Não há força para gritar!

TRIGINTA NOVEM! Apenas dor!

QUADRAGINTA! A minha e sua dor sobre Jesus!

Quantos açoites ainda teremos que contar? Você consegue sentir a dor? Você consegue perceber a dor? É para esta dor que devemos olhar! É para a sala dos açoites que devemos nos dirigir hoje, para contemplar a minha e a sua dor. Para contemplar a morte. Para contemplar o manto escarlate que lhe colocam, para sentir os cravos da coroa de espinho entrando em sua cabeça, para sentir os pregos rasgando-lhe a pele, para sentir a lança a perfura-lo, para sentir o corpo pesando no madeiro, para ouvir as zombarias e os escárnios, para sentir a dor do abandono e o peso do pecado. Senhor, tem piedade de nós.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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