Sermões

Epifania: tempo de refletir a luz do Senhor

Dispõe-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor nasce sobre ti. Porque eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti. As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. Levanta em redor os olhos e vê; todos estes se ajuntam e vêm ter contigo; teus filhos chegam de longe, e tuas filhas são trazidas nos braços.

Então, o verás e serás radiante de alegria; o teu coração estremecerá e se dilatará de júbilo, porque a abundância do mar se tornará a ti, e as riquezas das nações virão a ter contigo. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor.

(Isaías 60.1-7, João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

O texto que acabamos de ler faz parte da terceira parte do livro do Profeta Isaías, que chamaremos em nossa mensagem de o Trito-Isaías, escrito por volta de 530a.C. É quase impossível traçar a estrutura do terceiro bloco do livro, devemos nos ater à pesquisa dos temas e assuntos importantes. É possível que as profecias do Trito-Isaías, que vão do capítulo 56 até o fim, capítulo 66 apontem para as duas primeiras partes do livro e, de alguma forma, tentam ampliar e explicar seus conteúdos. O cerne está nos capítulos 60 a 62, onde estão as promessas centradas em Jerusalém. Em suma, os capítulos afirmam que os dispersos voltarão para casa e as nações vão se juntar, no futuro, a Israel. O nosso texto base possuí dois paralelos, um em Isaías 2 e outro em Ageu 2, identificado na afluência dos povos para Jerusalém.

É olhando para este panorama de Isaías que contemplaremos nosso texto e nele identificaremos a promessa que cabe a nós hoje. Como as palavras do Trito-Isaías fazem sentido para nós, cristãos do século XXI?

Crédito: freeimages

Dispõe-te e resplandece

Há dois termos aqui que quero destacar para nossa reflexão: “Dispõe-te” e “resplandece”. O termo hebraico para dispõe-te é feminino singular. Faz referência a Sião, a cidade de Jerusalém. Dispõe-te, ou seja, esteja disposto, levante-se! Mas para que Sião deveria se levantar? Para resplandecer a luz que vem. Em oposição ao sofrimento provocado pela sombra da destruição e da opressão, Sião se levantaria como um luzeiro, um farol a reluzir luz por todo o mundo e faria isto com felicidade e contentamento, não como obrigação. Faria como direção e salvação para o mundo.

Olhando para tal profecia, podemos dizer que Jesus, a luz do mundo, veio para nos conduzir ao caminho de vida, para nos dar salvação. Em Jesus temos a direção para apontarmos o caminho da salvação. Ele é a luz que vem. Ele é a glória do Senhor que nasce sobre Sião. E nasce sobre nossas vidas também. O Evangelho de João nos lembra disto:

De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida. (João 8.12)

Hoje, quando olhamos para o calendário cristão e nos lembramos da Epifania, o convite do Trito-Isaías é para que nós também nos levantemos e façamos resplandecer a luz do Senhor. Somos convidados a sermos os que levarão a luz àqueles que se encontram nas trevas da morte e distantes de Deus. Para isto, é preciso se dispor a ir, se levantar e levar a luz do Senhor. Levante-se, Igreja! É hora de levar a luz de Deus ao mundo, é nossa missão lutar contra as trevas que oprimem e tiram a vida. E estas trevas cobrem a terra.

As trevas cobrem a terra

No tempo do Trito-Isaías, as trevas se apresentavam como a opressão e a dominação que vinha dos Assírios e da Babilônia. As trevas eram a destruição, a violência, a fome e a guerra. Trevas que assolavam o povo e consumiam as forças da nação. Trevas que levou o povo para o exílio e que matou e violentou os que ficaram. Trevas que transformaram Jerusalém num monte de ruínas e que liquidou com as plantações e o gado. Trevas que levaram o povo a chorar e os profetas a olhar para Deus, clamando por socorro e esperança.

Vivemos tempos em que as trevas também cobrem a humanidade. Trevas que se manifestam nas guerras por todos os lados. Trevas que tomam nossa paz e nos rodeiam diariamente. Trevas que assolam nossos relacionamentos. Trevas que assolam nossos trabalhos. Trevas que assolam nossa fé. Poderíamos estender a lista de exemplos de onde as trevas estão e como elas influenciam nossas vidas, tomam nossos queridos e tentam nos cegar, para que não vejamos a luz de Deus brilhar. Trevas que insistem em nos rodear e nos tirar da missão de ser e fazer discípulos. Trevas da fofoca. Trevas do ativismo religioso. Trevas do mais reclamar e menos fazer. Trevas que tentam nos desviar daquilo que a Igreja nasceu para ser e fazer.

Diante de tantas trevas a nos rodear, Trito-Isaías está clamando e nos chamando:

Dispõe-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor nasce sobre ti.

Até quando ficaremos calados diante das trevas do mundo? Até quando ficaremos calados diante das trevas que aprisionam nossos familiares e vizinhos? Nós somos eleitos para proclamar que toda treva tem fim, que a luz do mundo brilha para todas as nações e todas elas, com seus reis e governantes, se curvarão diante do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Tal qual os viajantes fizeram:

Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. (Mateus 2.11)

As nações se encaminham para a tua luz

A profecia do Trito-Isaías diz que as nações irão para a luz que Sião, de pé, resplandecerá.

As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu.

Esta é uma profecia que o Trio-Isaías explora constantemente. Não à toa 56.7 afirma que

a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos.

Não apenas para os judeus, mas para todo aquele que se achegar ao Senhor para o servir e amar. Por isso, em 60.3 o Trito-Isaías afirma que as nações se encaminharão para a luz que resplandecerá de Sião.

Foi exatamente isto que aconteceu quando os viajantes do Oriente, seguindo a luz da estrela, entraram na casa onde Maria estava e o adoraram. Quando adulto, Jesus, em nenhum momento de seu ministério, negou a profecia de que as nações iriam se prostrar diante dele. Chegou a apontar uma mulher estrangeira como tendo mais fé que em toda Israel. Em outra ocasião, passa um tempo conversando com uma mulher samaritana, à beira do poço. Em outra, cura o filho de um centurião romano. A luz de Jesus dissipa toda treva. Esta é a verdade do Evangelho. Vivemos para proclamar esta verdade.

Nossa missão é apontar a direção, refletindo a luz de Deus. A começar em nossa casa, nossos círculos de amizade, nossas vizinhanças, nossos locais de trabalho e estudo. Temos que ter a coragem e, na força do Espírito Santo, nos levantarmos para refletir a luz de Deus. Não se trata de uma opção, se trata de cumprir a ordem de Jesus de ser e fazer discípulos. Tudo o que fazemos, como Igreja, tem sido para dar condições a cada um aqui de cumprir a missão de refletir a luz de Deus. É Epifania, tempo de anunciar Jesus ao mundo e reconhecer o seu senhorio sobre nossas vidas.

Conclusão

É Epifania, tempo de anunciar quem é o Senhor de nossas vidas. Para tal, vamos refletir a luz de Deus onde quer que estejamos, anunciando quem é o Senhor de tudo o que há. Anunciando que a luz de Deus é capaz de dissipar todo tipo de treva. Proclamando que Deus amou o mundo a ponto de mandar a sua luz a nos guiar.

Não sei se você sabe, mas a vida só é possível na terra graças a um grande e reluzente astro. O sol. Eu não sei o quanto você sabe sobre o sol, mas segundo os cientistas, o sol é uma grande estrela que está morta e arde em fogo pois está se consumindo a si mesma. Tal qual um pedaço de papel, que você põe fogo nele, este fogo que mantem o sol brilhando, um dia se apagará. Os profetas, não à toa, comparam a vinda do messias como o nascer do Sol da Justiça. O Apocalipse diz que o sol se tornará “negro como saco de crina” e mais à frente afirma que

Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos. (Apocalipse 22.5).

É desta luz, eterna, que aquece e dá vida, que estamos falando durante toda nossa mensagem. A luz que é capaz de alcançar as pessoas nas mais densas trevas e fazer brilhar sobre elas a luz de Deus. Esta é a luz que devemos refletir àqueles que se encontram nas trevas. Não há lugar que ela não possa alcançar.

Quero concluir lembrando do desmoronamento da Mina San Jose, no Chile, ocorrido no dia 5 de agosto de 2010, as 14h, horário local. Durante mais de sessenta dias, trinta e três sobreviventes estiveram confinados a mais de 680 metros de profundidade. No fundo da terra, onde as condições eram extremas, aqueles trinta e três homens enfrentaram dias de trevas. E é de um dos sobreviventes, Mário Sepúlveda, que destaco a seguinte afirmação sobre aqueles dias:

Estive com Deus e com o Diabo e lutei. Deus venceu, agarrei-me na melhor mão e em nenhum momento duvidei de que Deus iria me tirar daqui.

Só há uma maneira de vencer as trevas: agarrando-se na melhor mão, sem duvidar que Deus é o único capaz de nos tirar das trevas de nossa existência e nos usar, como instrumentos de sua graça, para alcançar os que se encontram nas trevas. Dispõe-te, resplandece, Igreja!

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil


 

Sermão pregado no domingo, 3 de janeiro, na Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara.

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