A ordem do culto

Por que o culto é como é? A IPI do Brasil possuí uma diversidade litúrgica enorme. Em algumas de nossas Igrejas a palavra liturgia é abominada, em outras, é exaltada. Controvérsias à parte, precisamos compreender que a ordem do culto é moldada conforme a realidade da comunidade. Cada comunidade local cultua e expressa sua fé de acordo com sua relação com Deus, fundamentada na Palavra, na história da comunidade e na história cristã. Precisamos compreender a diferença de Culto e Liturgia e como ambos se relacionam.

O culto

Culto é o encontro da comunidade com Deus. É o encontro de dois parceiros. Um vai à casa do outro. Um recebe o outro. Este encontro tem dia e hora marcada. É um encontro agendado. De um lado, Deus, o pai da comunidade que se encontra com ele. O Senhor deste povo, a razão de ser deste povo. É Deus quem faz cada pessoa desta comunidade uma comum unidade.

Do outro lado temos a comunidade. A comunhão das pessoas. Veja, é comunhão, não um ajuntamento despropositado ou amontoado de pessoas seguindo um rito como robôs em uma fábrica. Uma comunidade possui, assim como uma família, história, um passado, fatos a serem celebrados, momentos importantes que se repetem ao longo do ano, uma maneira de ser e pensar.

Assim, temos dois parceiros que se encontram. Mas por que eles se encontram? Porque um deles convida e ou outro é convidado. Um deles permite e ordena que o outro se encontre com ele. Deus ordena que seu povo, a quem ele une como comunidade, se encontre com ele. Não é a comunidade que invoca Deus, mas sim Deus que convoca a comunidade e se coloca à disposição para se encontrar com ela.

O fundamento do culto cristão está no Evangelho de Mateus 18.20: Porque, onde dois ou três estão juntos em meu nome, eu estou ali com eles. Quando estamos unidos, Deus está conosco, pois somos comum unidade. Podemos marcar um dia e um horário de culto, ou seja, de encontro com Deus, pois ele mesmo se dispõe a se encontrar com seu povo.

Portanto, como Igreja, não temos uma opção de ir ou não ao culto. Nós vamos ao culto por que fazemos parte de uma comunidade que recebeu como ordem se encontrar com Deus, portanto, eu sou responsável por esse encontro, se eu não for, este encontro não será um encontro completo.

A liturgia

Definimos que culto é o encontro da comunidade com Deus. O que acontece neste encontro? O mesmo que acontece num encontro de amigos. Repare quando duas pessoas conversam. Há apenas troca de palavras acontecendo? Não. Além da troca de palavras, há também olhares, gestos, movimentos com o corpo. São mensagens verbais e não verbais entre eles. O mesmo ocorre no culto.

O conjunto destas mensagens verbais e não verbais que ocorrem no culto chamamos de elementos e formas. Mas não é um amontoado de formas e conteúdo de maneira desordenada. Retomando o exemplo de uma conversa, num bate-papo ninguém começa falando “tchau” ou “até logo”. Nem se alguém pergunta se você está bem você responde “vai chover”. Da mesma forma na liturgia os elementos não são desordenados, a liturgia possui uma estrutura e possui elementos que se encaixam nesta estrutura. Como em toda estrutura, existem partes imprescindíveis e partes que são úteis, mas que podemos abrir mão delas. Existem elementos litúrgicos que são fixos. Outros podem ser deslocados conforme o entendimento da comunidade. Assim moldamos a liturgia a nossa realidade.

E na minha Igreja?

O culto e a liturgia não brotaram do nada. Em cada uma de nossas Igrejas ele é fruto de sua história e como seus líderes e povo se relacionaram e se relacionam com a Palavra de Deus e a Tradição Reformada. Igrejas litúrgicas não necessariamente são mais teologicamente Reformadas que Igrejas cuja ordem litúrgica não são tão fieis à liturgia dos reformadores. No entanto, sabemos que a fidelidade aos princípios Reformados levará as comunidades a observar as partes litúrgicas que Calvino e Lutero preservaram e incentivaram na Reforma. Adoração, confissão e perdão, Palavra, afirmação de fé, ofertório, Santa Ceia e envio não são meras divisões didáticas, são, antes, a forma como nós nos relacionamos, enquanto comunidade, com Deus.

Independente se sua Igreja é litúrgica, com o padrão de liturgia que a maioria de nossos pastores e nossas pastoras aprenderam nos nossos Seminários e em nossa FATIPI, ou se possuí uma ordem de culto mais distante da tradicional Reformada, todo Cristão precisa se questionar se o culto que prestam a Deus é Bíblico, teologicamente fundamentado e reflexo da comunidade. Como exemplo, e para terminar, cito minha visita à 1ª IPI de Belém, PA. A liturgia foi nos moldes dos Reformadores e os cânticos refletiam a realidade do povo, inclusive no ritmo do Carimbó, típico do Pará. É apenas um exemplo de como o culto pode e deve ser Bíblico e Reformado expressando as peculiaridades do povo que se encontra com Deus.

Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Secretário de Música e Liturgia de IPIB
Pastor da IPI de Araraquara, SP


Texto escrito para coluna mensal da Secretaria de Música e Liturgia da IPIB em O Estandarte.

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