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O povo que não conhecia a palavra “Deus”

Texto de autoria de Adair Neto, publicado originalmente aqui


O grande navegador Ricardo, na última viagem de sua vida, após dias e dias perdido pelo mar, avistou uma ilha. Era a esperança para ele e seus marinheiros famintos.

Caminhou por um tempo feliz por sentir nos pés descalços o gosto da terra. Apalpou uma maçã e saboreou-a intensamente.

Aos poucos, enquanto andava, começou a ouvir batuques distantes. De início, achou ser algo da natureza, mas o barulho começou a ficar mais alto. Era, por certo, uma música.

Tomou a pistola numa mão e a espada noutra e, junto com seus marinheiros, partiu em direção à música.

Escondidos no mato, viram um povo de pele dourada, dançando nus. A alegria do povo era tão grande que, numa inesperada loucura, decidiram jogar as armas no chão e ir em direção à roda.

Quando aquele povo viu os estranhos se achegarem, abriram a roda para que eles participassem. Enfeitiçados pela serenidade dos rostos humanos, os navegantes dançaram por horas.

O sol se punha quando a dança terminou. Ricardo e seus amigos foram convidados a tomar uma bebida e dormir numa cabana reservada para visitantes, o que eles de pronto aceitaram.

Num ritmo devagar de vida, passaram anos na aldeia, sem saudades de sua terra.

***

Certa noite, quando Ricardo já tinha aprendido a língua do povo, ele e a líder da comunidade conversavam sobre a impressão que ele estava tendo do lugar.

Ricardo contou-lhe de como gostara da tranquilidade e da sensibilidade do povo. Mas havia uma coisa que ele ainda não entendia. Ele dominava o idioma com notada qualidade, mas não encontrara nenhum equivalente para a palavra “Deus”.

— De onde viemos, toda a ordem do mundo e da sociedade estão sustentadas nos mandamentos daquilo que chamamos de Deus — disse ele, enquanto ela escutava curiosa — Qual palavra vocês usam para Deus?

— Fale-me mais sobre Deus — ela pediu.

— Deus é o ser criador do mundo e aquele que nos resgata quando precisamos.

— O mundo existe. E parece haver algo de misterioso que nos acompanha. Mas não temos nenhuma palavra para descrever isso.

— E como vocês definem esse… — Ricardo fez silêncio, buscando a palavra certa, enquanto gesticulava a beleza do lugar — esse mistério que está presente em cada pedaço do mundo e em cada pessoa?

— Nós não o definimos. Nós o vivemos.

Espantado, Ricardo acenou com a cabeça e não disse mais nada durante o dia. Foi dormir numa rede, olhando as estrelas.

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