Sermões

Eleitos

Portanto, já que foram escolhidos por Deus para a nova vida de amor, vistam a roupa que Deus preparou para vocês: compaixão, bondade, humildade, autocontrole, disciplina. Sejam moderados, satisfeitos com o segundo lugar, rápidos em perdoar uma ofensa. Perdoem tão rápida e completamente quanto o Senhor os perdoou. E, a despeito do que mais vestirem, revistam-se de amor. O amor é a roupa básica de vocês, para todas as ocasiões. Estejam sempre vestidos com ela.

Que a paz de Cristo guarde vocês em sintonia uns com os outros. Nada de sair por aí, fazendo o que quer. Cultivem a gratidão. Que a Palavra de Cristo — a Mensagem — esteja no controle de tudo. Deem a ela todo o espaço da sua vida. Orientem uns aos outros, usando o bom senso. E cantem de coração para Deus! Que tudo na vida de vocês — palavras, ações e tudo o mais — seja feito no nome do Senhor Jesus, com ação de graças a Deus, o Pai, a cada passo do caminho.
(Colossenses 3 12-17 – A mensagem)

Somos eleitos. Já ouviu essa expressão? Cristãos como nós, de Tradição Reformada, tendem a usá-la para explicar a doutrina da Salvação e como e por que pertencem a uma Igreja. O texto que lemos fala sobre ser eleito. Na Tradução Contemporânea A Mensagem, que foi lida diz: “Portanto, já que foram escolhidos por Deus para a nova vida de amor”, Na Nova Tradução na Linguagem de Hoje diz: “Vocês são o povo de Deus. Ele os amou e os escolheu para serem dele”. A Tradução João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada diz: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus”. A eleição é tema recorrente nas cartas de Paulo. A eleição não é tratada como um tema para justificar exclusivismos, mas para apontar a direção de como os cristãos devem viver.

Diante do fato de sermos eleitos, como então compreender que cristãos fazem e dizem coisas que não convém ou que não deveriam dizer, pelo fato de serem cristãos? Quando a velha vida se manifesta, como entender a eleição? É sobre isso que falaremos hoje. Vamos então nos aproximar do texto, lançando um olhar diferente sobre a história que lemos.

A velha vida se manifestava

Sentado num canto da sala, com olhar fixo na parede, está Epafras. Ele saíra de Colossos para se encontrar com Timóteo e Paulo, que estava em prisão domiciliar. Timóteo entra na sala e se assenta próximo a Epafras. Paulo chega e, também em silêncio, se coloca ao lado dele. Eles se entreolham e parece um concordar silencioso sobre tudo o que Epafras havia dito instantes antes. A influência dos judeus, que se instalaram na região por decreto imperial, sobre as nascentes comunidades cristãs da região estava levando o povo a aderir a filosofias e práticas que já haviam sido combatidas por Paulo, Timóteo e o próprio Epafras. A sensação de “ainda isso” era comum. Não bastasse a influência judaica, ainda havia algumas práticas que estavam arraigadas na cultura do povo e que, embora combatidas, ainda se manifestavam. Epafras, olhando para Timóteo, quebra o silêncio “É como se déssemos a eles uma roupa nova, feita sob medida, e eles insistissem em usar a velha roupa apertada e rasgada”.

Colossos era uma cidade na região do Lico, na Frígia, localizada a duzentos quilômetros de Éfeso. Pertencia à província romana da Ásia. A igreja não fora plantada por Paulo, mas sim por Epafras. Em determinado momento de seu ministério à frente da Igreja de Colossos, Epafras parte ao encontro de Paulo para pedir ajuda quanto ao que fazer com as influências do judaísmo e das filosofias da região. Devoção extrema, culto a anjos, festas religiosas e proibições religiões intensas. Tudo isso fazia Epafras enxergar a velha vida se manifestando. Era como se toda a pregação, tudo o que fora dito até então não surtisse efeito. A religiosidade estava cravada na vida da maioria do povo e a mensagem precisava ser anunciada e reafirmada pois eles foram eleitos para viver o amor.

Esta era a certeza que movia a ação pastoral de Epafras. Eleitos para viver o amor, eles poderiam abrir mão das amarras religiosas, das prisões filosóficas e viver o amor de Deus em toda sua dimensão. Mas muitos olhavam para o amor do Pai e penduravam em seus ensinos comportamentos e atitudes que nada se pareciam com a vontade do Pai. Epafras sabia disso e por isso sofria, pois via o povo se prendendo ao invés desfrutar da liberdade em Cristo Jesus. Mas tal qual a Igreja de Colossos, também em nós a velha vida ainda se manifesta.

A velha vida ainda se manifesta

Ronaldo era membro de uma Igreja. Sempre presente às atividades, era considerado por muitos um membro exemplar. No entanto, em sua vida fora da Igreja ele tinha um comportamento diferente. Com o tempo, tal comportamento começou a ser notado por membros da comunidade, que comentavam pelos cantos o que ele falava e fazia quando não estava com o pessoal da Igreja. Aos poucos, o mal testemunho de Ronaldo acabou por contagiar os demais membros com dois outros maus testemunhos, o da conivência e o da fofoca. Em ambos os casos, a velha vida ainda era latente em todos.

Assim como na Igreja de Colossos, hoje muitos cristãos vivem uma vida distante da vontade de Deus. Somos bombardeados todos os dias com imagens e notícias que bem refletem o verso cinco do terceiro capítulo da carta. Dia após dia nos acostumamos a ver a promiscuidade, a impureza, a imoralidade e não achamos tão ruim assim fazer o que bem entendemos. Consideramos que nossa vida nada tem com a Igreja, que a Igreja é apenas um adendo à nossas vidas e achamos que padrão moral e ético é coisa de retrógrados e velhos, nós não, nós não precisamos disso. Daí, cantamos, oramos e lemos a Bíblia como um ritual semanal de devoção a Deus, mas na verdade, nada faz diferença em nossas vidas. Queremos e dizemos que estamos de roupa nova, mas quando olham para nossas atitudes e palavras, estamos com uma apertada e rasgada roupa velha. Queremos e dizemos que somos nova criatura, mas agimos como escravos deste mundo e não como escravos de Deus.

Somos eleitos para viver em amor. Tal eleição não nos dá o direito de apontarmos dedos acusadores, mas nos dá o direito, enquanto cristãos, a exortar e orientar uns aos outros segundo a vontade de Deus. Vivemos tempos em que muitos se posicionam como eleitos de Deus, mas poucos se submetem ao amor transformador. Poucos aceitam que seus erros sejam apontados e muito poucos se submetem a serem discipulados e transformados. A eleição não é para inclusão ou exclusão. A eleição nos leva a nos sujeitarmos uns aos outros em amor, pois somos eleitos para viver em amor.

Precisamos assumir nossa responsabilidade diante do amor de Deus. É o que Paulo enfatiza no verso sete e oito:

“Não faz muito tempo, vocês viviam fazendo tudo isso, sem conhecer nada melhor. Mas agora que sabem mais abandonem tudo de uma vez”.

É preciso abandonar as práticas do passado. É preciso abandonar a promiscuidade, a impureza, a imoralidade, o egoísmo, o mau comportamento, a raiva, a ira, a avareza, a grosseria, as conversas que só servem para falar mal pelas costas e nada acrescentam ao Reino de Deus. Tais práticas devem ser abandonadas por nós para que vistamos a nova roupa, para que vivamos a nova vida em Cristo Jesus.

Não se trata de ser rígido moral e eticamente com os outros, se trata de ser moral e eticamente alinhado com a vontade de Deus. Os eleitos de Deus já sabem qual é o parâmetro, pois são eleitos para viver em amor. E é exatamente este amor que dava aos colossenses a certeza de que, eleitos, tinham uma nova vida. Voltemos à sala onde Epafras, Timóteo e Paulo conversavam.

Eleitos, tinham uma nova vida

“É como se déssemos a eles uma roupa nova, feita sob medida, e eles insistissem em usar a velha roupa apertada e rasgada” diz Epafras, quebrando um longo silêncio ao lado de Timóteo e Paulo. Timóteo concorda, assentindo com a cabeça. Paulo olha para Epafras e concorda com ele e diz: “Precisamos dizer a eles que já são escolhidos por Deus para uma nova vida de amor. Deus tem uma roupa nova para eles e deve ser vestida” Epafras concorda e Paulo continua: “Fazem o que querem. Isso é ingratidão! Tudo deve ser feito segundo a vontade de Deus e com gratidão e amor”. Novamente o silêncio toma conta da sala. Juntos, cantam um hino de louvor a Deus e se retiram para dormir, com a certeza de que foram eleitos para viver em amor.

O amor de Deus se revela em Cristo Jesus e por meio dele temos uma nova vida. Epafras sabia bem disso e era isso que ele pregava. Paulo, ao escrever aos colossenses, retoma este tema e aponta para a necessidade de viver valores que são eternos: compaixão, bondade, humildade, autocontrole, moderação, contentamento, perdão. Todos estes valores compõem o tecido da nova roupa, fazem parte da nova vida. A nova vida deve ser vivida alicerçada na paz de Cristo, que dá o tom dos relacionamentos. Submissão a Cristo tem relação direta com a gratidão por sermos salvos. Ele é o Senhor da nossa vida.

Deus é quem escolhe os seus. Não para serem superiores, ou para contarem vantagens. Não para agir impulsivamente ou para viver irritados, sendo grosseiros e agindo de maneira inconveniente. Os colossenses estavam se prendendo a práticas religiosas vazias, quando deveriam se prender a Cristo. Deus convida os colossenses ao arrependimento. É Deus, em sua graça, que em Cristo Jesus os chama para deixar de lado uma vida de prisões e serem libertos pela graça de Deus, que restaura, dá a paz e pela Palavra nos orienta. Deus nos chama para viver em amor. Somos eleitos para viver em amor.

Paulo, ao escrever aos colossenses, mostra a importância de se estar submisso a Cristo.

“Que a paz de Cristo guarde vocês em sintonia uns com os outros”

“Que a Palavra de Cristo esteja no controle de tudo”

“Que tudo na vida de vocês — palavras, ações e tudo o mais — seja feito no nome do Senhor Jesus”.

É Cristo quem direciona e estabelece o padrão dos relacionamentos. É Cristo que, por meio do Evangelho, nos controla dizendo o que devemos ou não fazer. É Cristo que reina na nova vida, por isso o nascido de novo faz tudo em nome de Jesus. Paulo reconhece a razão de sua vida e aponta para os colossenses a necessidade de transformação. Eleitos não vivem ao seu bel prazer. Eleitos vivem em amor, no caso, no amor de Deus. Os colossenses, eleitos, tinham nova vida. Também nós, eleitos, temos uma nova vida.

Eleitos, temos uma nova vida

José estava no portão de casa quando um homem, visivelmente alcoolizado, se aproximou dele pedindo um trocado. José respirou fundo. Olhou para dentro de casa e, por um instante, pensou em como ajudar aquele homem. Voltou-se para o pedinte e o convidou a entrar. Nos fundos da casa de José tinha uma edícula. Ele levou o homem até lá e o convenceu a tomar um banho. Após o banho, José lhe presenteou com uma roupa sua. Banho tomado, Joana, esposa de José passou um café, bem forte, e serviu com bolo de fubá. Todos comeram, na mesa da sala, enquanto José tentava entender como aquele homem chegou àquele ponto. Ao final de tudo, o homem agradece tudo que recebera, sai pela porta da frente e some na rua.

Compaixão, bondade, humildade, autocontrole, disciplina, moderação, contentamento, perdão. Palavras e valores que estão sempre no nosso entorno, presentes no Evangelho, mas não são vividos por nós. A graça de Deus é tamanha que em Cristo Jesus temos a oportunidade de aprendermos a viver tais valores. Não se trata de uma transformação moral, mas sim de uma transformação total de nossas vidas. A graça nos leva a enterrar a velha vida e a buscar a nova vida como padrão para nós. Uma vida entregue e submissa à vontade de Deus.

Eleitos, temos uma nova vida. Nela, Cristo Jesus nos capacita a viver segundo sua vontade. Cristo Jesus nos capacita a sermos compassivos, mesmo quando a sociedade nos pede que sejamos impiedosos. Cristo Jesus nos capacita a sermos bondosos, mesmo quando a sociedade nos impõe a maldade como padrão. Cristo Jesus nos capacita a sermos humildes, mesmo quando somos levados a contarmos vantagem em tudo. Cristo Jesus nos capacita a nos controlarmos, mesmo diante das situações mais desesperadoras. Cristo Jesus nos capacita a sermos disciplinados, mesmo quando a sociedade nos cerca de atrativos e distrativos. Cristo Jesus nos capacita a sermos moderados, mesmo quando as circunstâncias nos pedem atitudes extremadas. Cristo Jesus nos capacita a sermos satisfeitos, mesmo quando tudo nos parece fora do eixo. Cristo Jesus nos capacita a perdoar, mesmo que seja o pessoal e socialmente imperdoável.

Todos estes valores e princípios nós temos o privilégio de vivê-los hoje, já. Aliás, vivendo-os testemunharemos do amor de Deus. Daí compreendemos a dimensão das palavras de Jesus em Atos 1.8:

“vocês serão minhas testemunhas”.

Eleitos, temos uma nova vida e esta nova vida que nos leva a testemunhar do amor incondicional de Deus por nós. Tal amor se manifesta em sua compaixão, bondade e paciência para conosco ao enviar seu Filho por amor de mim e de você. Eleitos, temos uma nova vida. Somos eleitos para viver em amor.

Conclusão

Em nossa caminhada cristã, por diversas vezes, a velha vida se manifesta. Quando deixamos de lado os valores do Reino para viver a nossa vontade, manifestamos nossa velha natureza. No entanto, não devemos nos desesperar nem nos entregarmos às dificuldades, mas sim confiarmos que o perdão de Deus está acessível a todos os que buscam viver sua vontade.

Diante de tudo o que dissemos até aqui, concluímos que de nada adianta nos apresentarmos como cristãos se não buscarmos a santidade e a transformação de nossas vidas par ao parâmetro de Cristo. Somos eleitos para viver em amor pois Deus é amor. Você tem amado a ponto de se submeter a Cristo com o firme propósito de viver a nova vida que nele temos? Os valores e princípios do Reino não são meros recursos didáticos ou literários, mas sim verdades que devem ser vividos por aqueles que são eleitos para viver o amor de Deus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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