“O rebanho me pertence”

A imagem pastoral é um tanto quanto distante da nossa realidade. Mas quero resgatar esta imagem e falar com você, que pastoreia, sobre um pouco da minha caminhada pastoral e como Deus tem cuidado de mim.

Assim como o pastor busca as ovelhas dispersas quando está cuidando do rebanho, também tomarei conta de minhas ovelhas. Eu as resgatarei de todos os lugares para onde foram dispersas num dia de nuvens e de trevas.

Procurarei as perdidas e trarei de volta as desviadas. Enfaixarei a que estiver ferida e fortalecerei a fraca, mas a rebelde e forte eu destruirei. Apascentarei o rebanho com justiça.

(Ezequiel 34.12,16 Nova Versão Internacional)

Enfaixarei a que estiver ferida e fortalecerei a fraca. O que esta imagem tem a nos dizer hoje? Que se quisermos experimentar os cuidados de Deus, teremos que nos sujeitar a ele. Deixar que ele mexa nas feridas, trate os ferimentos e ligue o que foi quebrado. Tal tratamento exige de nós fidelidade e confiança de que Deus é o único capaz de nos restaurar. Ele não o fará num passe de mágica, ele o fará com justiça e cuidando de cada ferida de acordo com a necessidade. Se são relacionamentos que precisam ser restaurados, ele tratará com você sua paciência e espírito de perdão e tolerância. Se é uma questão moral, ele mexerá com seus valores e irá expor verdades para você que te confrontarão. São apenas exemplos do que Deus pode fazer quando você ouve o chamado dele para ser curado. Qual será sua reação? Vai ficar se debatendo ou suportará a dor para que a transformação aconteça?

Trecho de “Ouça a voz do Bom Pastor”, sermão de minha autoria para o Domingo Jesus Cristo, o Rei do Universo, com base em Ezequiel 34.11-16; 20-24

Ano que vem completo dez anos de ordenado ao Ministério da Palavra e dos Sacramentos. Ao longo desses dez anos, sei que errei muito, mas sei que também fiz, e venho fazendo, o caminho da cruz. A minha fidelidade ao chamado de Deus para minha vida tem sido colocada à prova diariamente. É assim desde 1997, quando em meu peito ardeu a chama da vocação pastoral, em minha alma estremeceu e ecoou a voz do Senhor a me chamar e em minha mente iniciaram-se as lutas e questionamentos que até hoje persistem. Sempre disse aos mais chegados que nunca me vi como pastor, mesmo me reconhecendo como tal. Digo isto, pois se comparar minha caminhada de vida com a vida dos homens e mulheres que me pastorearam, eu não sou digno nem de limpar o chão deles. No entanto, o chamado arde em meu peito e, ao arder, a chama pastoral purifica e consome.

Quantas preocupações tive com o rebanho, lutas e dissabores que me fizeram pensar se eu, de fato, sou vocacionado para cuidar do rebanho do Supremo Bom Pastor? Todas as vezes que problemas e circunstâncias me levaram às lágrimas Deus me respondeu sempre com a mesma sentença: você é o pastor, mas o rebanho me pertence. Tal sentença sempre me fez recompor meu trabalho pastoral diversas vezes. Daí retomo a imagem pastoral de Ezequiel e a trago para minha realidade. Como pastor que cuida das feridas das ovelhas e as fortalece, inúmeras vezes Deus me buscou, tratou de mim e me fortaleceu em meio ao pastoreio de seu rebanho. O ofício pastoral não dispensa o ser cuidado pastoralmente. Hoje, o que sinto mais falta é da presença de amigos com quem eu possa contar e desabafar toda vez que a coisa aperta. Nessas horas, Deus toma seu cajado e me puxa para perto de si e diz: resista, você é o pastor, mas o rebanho me pertence.

De fato, eu sou o pastor e o rebanho não é meu. Tal verdade não me dá a liberdade para desmerecer ou desprezar o rebanho, nem tão pouco deixá-lo em segundo plano, antes, é um desafio a olhar para a infidelidade e rebeldia de parte do rebanho e não frustrar, não me afastar, mas amar e me aproximar. Também é um desafio para olhar para as ovelhas que estão sadias e convidá-las a encostar nas feridas e afastadas para ajudá-las a seguir adiante. Oriento, ensino, mostro o caminho, cuido e direciono, mas cada ovelha responde por si diante do Bom Pastor. Tal afirmação também não serve de desculpas para me afastar da ovelha rebelde, mas sim buscá-la, mesmo quando me parece impossível trazê-la de volta. Por vezes, tais ovelhas não vão querer me ouvir. Pouco importa, eu continuo a pregar, testemunhar e viver de acordo com a vontade de Deus. Prossigo, mesmo sabendo que falho em cumprir minha missão, certo de que minha vida, tal qual minha vocação, não me pertence, pertence a Deus e assim, erro, me arrependo, sou perdoado e procuro não errar novamente. Prossigo para o alvo, que é Cristo, e prossigo pastoreando, mesmo falhando, mesmo acertando, pois não pastoreio para mim mesmo nem por mim mesmo, pois o pastor sou eu, mas o rebanho pertence a Deus.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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