Sermões

Solidariedade e redenção: uma visão pastoral do livro profeta Obadias – Parte 2: a redenção que nos move

“Pois o dia do Senhor está próximo
para todas as nações.
Como você fez, assim lhe será feito.
A maldade que você praticou recairá sobre você.

Assim como vocês beberam do meu castigo no meu santo monte,
também todas as nações beberão sem parar.
Beberão até o fim, e serão como se nunca tivessem existido.
Mas no monte Sião estarão os que escaparam;
ele será santo
e a descendência de Jacó possuirá a sua herança.
A descendência de Jacó será um fogo,
e a de José uma chama;
a descendência de Esaú será a palha.
Eles a incendiarão e a consumirão.
Não haverá sobreviventes da descendência de Esaú”,
declara o Senhor.

Os do Neguebe se apossarão dos montes de Esaú,
e os da Sefelá ocuparão a terra dos filisteus.
Eles tomarão posse dos campos de Efraim e de Samaria,
e Benjamim se apossará de Gileade.
Os israelitas exilados se apossarão
do território dos cananeus até Sarepta;
os exilados de Jerusalém que estão em Sefarade
ocuparão as cidades do Neguebe.
Os vencedores subirão ao monte Sião
para governar a montanha de Esaú.
E o reino será do Senhor.

Solidariedade e redenção: uma visão pastoral do livro do profeta Obadias é uma mensagem dividida em duas partes. Na primeira, falamos sobre a solidariedade que Deus nos convida a viver. Na segunda falaremos da redenção. Hoje, num primeiro momento, vamos nos deter no conceito de Dia do Senhor e sua importância e relevância para o Povo de Deus e o livro de Obadias. Depois, compreenderemos a redenção que se dá no juízo, no livramento e no chamado de Deus em nós.

Redenção. No primeiro século da era cristã, redenção era o ato de soltura do escravo mediante o pagamento de um preço. Os apóstolos tomam emprestado este termo para explicar como Jesus, por meio do seu sangue derramado na cruz, nos liberta da escravidão do pecado para a vida, não só eterna, mas hoje, já. Como esta redenção deve ser entendida hoje? Como nós, cristãos, olhamos para a redenção e a salvação, principalmente quando lemos textos do Antigo Testamento que tratam do assunto? É sobre isso que falaremos hoje e vamos começar tentando compreender o que é o Dia do Senhor e a razão de sua importância para entender a redenção no Antigo Testamento.

Sobre o Dia de Javé

Antes de nos debruçarmos no tema da redenção no juízo, livramento e chamado, vamos falar sobre o Dia do Senhor.

O Dia do Senhor, Dia de Javé, é um dos principais temas dos profetas bíblicos, principalmente no período do exílio. Embora haja menção a ele em profetas pré-exílicos, o Dia de Javé é o dia em que o Senhor virá para julgar e executar a sentença contra aqueles que tomaram seu povo, quer em 721 a.C. no Reino do Norte (Israel) ou em 587 a.C. no Reino do Sul (Judá). Voltando um pouco no tempo, precisamos compreender que o Dia de Javé, nas primeiras vezes que surge na literatura do Antigo Testamento, vem como uma esperança de restabelecimento da paz e da prosperidade, sem necessariamente surgir a questão do julgamento. É Martin Rösel, em seu Panorama do Antigo Testamento, que nos lança luzes ao afirmar que, com os exílios, surge a questão do senso de justiça e da mão de Javé pesando sobre aqueles que oprimiram e mataram o povo de Deus.

O Dia de Javé é o eixo sobre o qual os profetas constroem sua teologia. Não se pode ler textos proféticos sem o entendimento do que vem a ser o Dia de Javé. Na tentativa de construção da identidade do povo durante o exílio, e após ele, o entendimento da justiça de Deus sobre o opressor e também sobre o povo infiel é o eixo para compreendermos o que o povo enfrentou e como os profetas davam ensino, correção e ânimo para o povo se arrepender e se voltar aos caminhos do Senhor. Enfraquecido no período do exílio, o povo de Deus remanescente na terra sofria com a opressão das nações vizinhas e passou a ser alvo de constantes invasões e saques.

A opressão daqueles que investiam contra o povo de Deus era tanta que não oferecia chance de resistência. Como enfrentar e justificar tamanha afronta ao povo de Javé, o povo escolhido pelo Deus verdadeiro? O Dia de Javé surge como resposta às injustiças que o povo sofre na terra prometida. Há aqui dois conceitos que precisam ser entendidos, o Mishpat e o Sedeqa, o direito e a justiça. Tais conceitos norteavam, nos Salmos, a maneira como o povo deveria se achegar a Javé. Os Salmos 15 e 24 falam de como o homem deveria se achegar no Templo de Javé. Somente os íntegros e justos poderiam fazê-lo, pois Javé é Deus justo e repudia a injustiça. Ao que tudo indica, os profetas tomam posse deste conceito e o retiram do templo, transferindo-o para a sociedade, portanto, todo o povo tornou-se impuro e por isso sofre as consequências de seu pecado. Não há nem direito e nem é justo o povo desfrutar das bênçãos, visto que ele escolheu andar distante de Javé.

Antes de continuarmos, lembremos que até aqui estamos falando de Antigo Testamento, onde não havia salvação pela graça em Cristo Jesus, apenas a expiação dos pecados pelos sacrifícios. Hoje, em Cristo Jesus, não há meritocracia, há salvação pela graça. O que não excluí a busca pela integridade de caráter e cumprir a vontade de Deus. Continuemos a entender o Dia de Javé.

A busca pela justiça, o grito do oprimido e o sofrimento do povo levam os profetas a transportar o discurso do culto, o Mishpat e o Sedeqa,, o direito e a justiça, para as ruas, deixando de lado apenas a necessidade de purificação para cultuar, mas colocando esta exigência para ser povo de Deus, ou seja, o povo impuro não pode receber as bênçãos de Deus. Nos cultos, eram renovados os votos de justiça e fortificação da vida. Promessas eram exaltadas: vitória, bem-estar e fertilidade do povo e da terra. Não é surpreendente o fato dos profetas levarem para esfera social tais promessas que eram restritas ao ambiente de culto. Tais promessas evoluem para o pensamento de um dia de juízo, um juízo definitivo e final. Tal evolução se dá pela concepção de tempo que o povo tinha, com começo e fim.

Antes do exílio, havia o conceito de juízo final, o Dia de Javé era mencionado como promessa e o povo de Deus simplesmente esperava que ele aconteceria. Após o século VIII a.C., os profetas corrigem este pensamento acrescentando a ele o conceito moral. Assim, o Dia de Javé passa a ser não apenas o dia do julgamento final para aqueles que são ímpios e injustos, mas também para o povo da aliança que são injustos. A aliança com Deus exigia do povo fidelidade e os profetas passam a mostrar como a infidelidade do povo fez com que ele perecesse em diversos momentos da história. Este conceito se amplia quando se entende que o julgamento vem não para destruição total do povo, mas para sua purificação. Daí compreendemos que os profetas possuíam um ideal de sociedade.

O ideal de sociedade dos profetas nos faz compreender melhor a proclamação do Dia de Javé. Cada profeta deu ao Dia de Javé sua própria entonação. Uns enfocaram a questão cultual, outros a questão social e outros ambos os temas. Em todos eles, Javé vem para exercer o juízo e estabelecer o seu Reino, onde há de governar com justiça e equidade. Este ideal social aponta para uma sociedade onde Javé governará os povos da terra e não apenas Israel, que seria a mão de Javé para o cumprimento desta visão. O Dia de Javé apontava, portanto, não para uma teocracia mas para uma monarquia onde o próprio Javé reine, vide os salmos que evocam a entrada do Rei que vem reinar e mostram claramente que o Rei é o Senhor Javé.

O Dia de Javé é o eixo para entendermos toda a ação profética no Antigo Testamento. Não é diferente em Obadias, que cita o Dia de Javé como o desencadeador de toda a redenção. Tal redenção se dá no juízo de Javé sobre aquele que são infiéis a ele, se dá no livramento do povo de Deus que será recolhido ao seu santo Monte e se dá no chamado de seu povo que se encontra espalhado pela terra para voltar para Sião. Vamos então olhar para as imagens dos versos 16 a 21 e neles compreender como a redenção se relaciona com o juízo, livramento e chamado.

Redenção no juízo

Assim como vocês beberam do meu castigo no meu santo monte,
também todas as nações beberão sem parar.
Beberão até o fim, e serão como se nunca tivessem existido.

A descendência de Jacó será um fogo,
e a de José uma chama;
a descendência de Esaú será a palha.
Eles a incendiarão e a consumirão.
Não haverá sobreviventes da descendência de Esaú”,
declara o Senhor.

O versículo dezesseis faz referência à invasão a Jerusalém e tomada do Templo pelos edomitas. Ao que nos parece, na leitura do texto, os edomitas festejaram dentro do Templo, profanando o altar e fazendo do Templo um lugar de festa. O juízo será exercido pelas nações sobre Edom, bebendo a derrota dos edomitas. Já no verso dezoito, o povo de Deus será instrumento para derrocada dos edomitas. A referência a Jacó e José indica que o próprio povo de Deus irá exercer o juízo. Prefiro aqui acreditar que tal sentença soma-se ao verso 16 e não o contradiz. Israel, aliada às demais nações, destruirão Edom. Em ambos os versos há uma dura sentença que indica o extermínio dos edomitas. De fato, os edomitas foram derrotados por Judas Macabeus em 164 a.C. e como nação já não existiam mais no primeiro século d.C. Segundo alguns comentaristas, os edomitas foram por completo exterminados em 70 d.C. pelos romanos. Seja como for, o juízo alcançou os edomitas.

Como podemos entender tal juízo nos dias de hoje? Jamais de maneira individualista, como fazem algumas tradições religiosas, achando que os inimigos são aqueles que querem sua ruína. Precisamos nos lembrar que somos cristãos e que, de fato, o juízo de Deus se faz presente em nossa vida para nos levar a compreender e viver sua vontade. Jamais devemos negar o juízo de Deus. Na mesma medida não devemos tripudiar sobre aqueles que o estão experimentando.

A redenção hoje ocorre quando nos submetemos ao juízo de Deus, que vem não para destruir, mas para transformar e santificar nossas vidas. Da mesma forma, tal juízo se manifesta sobre povos e nações, de maneira a cumprir os propósitos de Deus na história. Como cristão, não nos cabe questionar os juízos de Deus, quer sobre nós mesmos, quer sobre outros, quer sobre nações. Cabe a nós nos submetermos à justiça de Deus e o seu juízo, nos arrependendo e nos aproximando mais de Deus e das pessoas ao nosso redor.

Redenção no livramento

Mas no monte Sião estarão os que escaparam;
ele será santo
e a descendência de Jacó possuirá a sua herança.

A sentença do verso dezessete nos remete à fórmula das sentenças de juízo: uma palavra de destruição aos inimigos e uma palavra de restauração do povo de Deus. Aqui, a redenção ocorre no Monte Sião, Jerusalém, lugar da morada de Javé e seu povo. O verso aponta para o livramento daqueles que permanecem fiéis a Javé e por isso mesmo estão resguardados em seu santo Monte. Não se trata de uma visão exclusivista de redenção, mas sim do estabelecimento do ideal de sociedade que já falamos anteriormente. É o início da construção do Reino de Deus que se dá pela justiça que livra seu povo e o guarda sobe seus domínios.

Como podemos entender tal livramento nos dias de hoje? Jamais de maneira individualista, como fazem algumas tradições religiosas, achando que somente sua tradição religiosa está salva do juízo de Deus. Precisamos lembrar que o juízo final pertence a Deus e ele exerce seu juízo sobre todos. O fato de sermos selados pelo sangue do cordeiro nos garante a salvação em Cristo Jesus, mas jamais o exclusivismo imediato para as questões do dia a dia. Somos separados por Deus para adorá-lo e glorifica-lo e, como consequência disto, servir a todos aqueles que se encontram longe de sua vontade.

Como cristãos, devemos entender o livramento de Deus como a garantia de que o pecado não mais tem domínio sobre nós. Em Cristo Jesus fomos resgatados, selados e separados para Deus. Estamos livres da condenação do pecado e nossa vida não nos pertence mais, pertence a Deus. Assim sendo, nossa vida deve refletir a liberdade que temos em Cristo Jesus para amar incondicionalmente nossos semelhantes. Como Deus nos amou, em Jesus, devemos amar uns aos outros, sem preconceitos ou barreiras. A redenção ocorre no livramento que temos do peso do pecado para que possamos viver a graça de Deus na vida do nosso semelhante.

Redenção no chamado

Os do Neguebe se apossarão dos montes de Esaú,
e os da Sefelá ocuparão a terra dos filisteus.
Eles tomarão posse dos campos de Efraim e de Samaria,
e Benjamim se apossará de Gileade.
Os israelitas exilados se apossarão
do território dos cananeus até Sarepta;
os exilados de Jerusalém que estão em Sefarade
ocuparão as cidades do Neguebe.
Os vencedores subirão ao monte Sião
para governar a montanha de Esaú.
E o reino será do Senhor.

Todas as regiões citadas compõem o mapa do Reino unido de Israel e Judá. Desde Sarepta ao norte, Efraim a nordeste, Gileade centro-leste, Montes de Esaú – Edom – a sudeste, Neguebe e Samaria ao Sul e o mar a oeste. Interessante notar que o texto faz menção aos Israelitas exilados que voltarão para a região norte e os de Jerusalém que estão exilados em Sefarade ocuparão as cidades do Neguebe, ao sul. Sefarade é um lugar incerto, pois textos antigos a posicionam na Ásia Menor, região da Lídia, outros o posicionam na Espanha, de onde surgiram os Judeus Sefaraditas, que identificam os Judeus da Península Ibérica e Norte da África.

Como podemos entender tal chamado nos dias de hoje? Jamais de maneira individualista, como fazem algumas tradições religiosas, achando que só eles farão parte do Reino de Deus a remir a exercer juízo sobre o mundo. É interessante notar esta visão de Obadias de que Deus usará as nações do mundo para exercer juízo sobre os edomitas. Muitos cristãos hoje têm esta mesma visão quando países não cristãos sofrem com guerras e violências, como se Deus estivesse exercendo juízo sobre eles. Temos que tomar cuidado ao fazer esta leitura, pois o juízo não é nosso, pertence a Deus e é ele quem o exerce.

Nós devemos, como cristãos, viver o chamado de Deus que nos redime de todo o pecado e que nos colocar diante da missão de ser e fazer discípulos. Podemos dizer que, se na profecia de Obadias o povo converge para região de Israel para a instalação do Reino de Javé, em Cristo, este mesmo povo se espalha por todo o mundo para anunciar este Reino, que é instaurado com a vitória da vida sobre a morte e que se concretizará no dia em que Cristo voltar. Até lá, devemos ser fiéis ao chamado de Deus para vivermos de maneira digna a redenção na cruz. Ao reduzirmos a redenção ao mero frequentar do culto, estamos desprezando o próprio Cristo.

Conclusão

Hoje tivemos a oportunidade de conhecer um pouco a respeito do Dia de Javé e como tal conceito perpassa toda literatura profética do Antigo Testamento. Olhamos para a profecia de Obadias tendo em mente o Dia de Javé e vimos que a redenção no juízo, livramento e chamado se dá quando nos submetemos ao juízo de Deus – quer sobre nós, quer sobre outros –, quando temos consciência do livramento de Deus que nos separa para servir ao Reino e quando somos fiéis ao chamado para proclamarmos a salvação em Cristo Jesus.

O Dia de Javé deve ser entendido pelos cristãos como dia em que Jesus voltará e haverá, então, o triunfo da vontade divina, rompendo toda resistência, quer espiritual, quer humana. Como cristãos, não estamos isentos do juízo de Deus e passaremos pelo julgamento. Nenhum ser humano estará isento dele, visto que somos responsáveis diante do Criador, segundo a graça que nos foi concedida. Hoje, não esperamos mais o Dia de Javé, mas aguardamos a volta de Cristo e o dia do juízo final.

Jesus Cristo, o Rei do Universo, domingo que celebramos no calendário litúrgico, existe para reconhecer o senhorio de Jesus sobre toda a criação. Como Senhor, ele virá para cumprir o juízo de Deus sobre a humanidade. Para nós, cristãos, não cabe o medo, mas sim a certeza de que somos lavados e purificados pelo sangue de Cristo e nele temos a justificação diante de Deus. Vivemos, então, não mais como um povo assolado pelo pecado, mas sim redimido pela graça de Deus em Cristo Jesus, como povo que vive hoje o Reino de Deus, que não mais espera o Dia de Javé, mas espera a volta do Rei. Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Solidariedade e redenção: uma visão pastoral do livro do profeta Obadias é uma mensagem dividida em duas partes e que nos convida a sermos solidários com aqueles que sofrem o juízo de Deus. Por que? Porque somos alvos de sua redenção. Redimidos, temos a liberdade em Cristo Jesus para vivermos a solidariedade. Obadias nos convida a olharmos para o terror e o sofrimento da humanidade e não nos calarmos, mas antes, estendermos nossos braços solidários aos que sofrem. O juízo de Deus não é motivo para nos vangloriarmos, mas sim para olharmos para os que sofrem e com eles sermos solidários. A redenção em Cristo Jesus nos convida a olhar o nosso semelhante e agirmos como Deus agiu para nos salvar: sermos solidários diante da total depravação do ser humano. Obadias nos convida a olhar para os dias de hoje e servirmos solidariamente aos que sofrem e, enquanto o fazemos, declaramos e proclamamos a conclusão de seu livro: “E o reino será do Senhor”. Como cristãos, olhamos para esta conclusão e declaramos e proclamamos: Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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