Sermões

A expiação de nossos pecados

Pois Cristo não entrou em santuário feito por homens, uma simples representação do verdadeiro; ele entrou nos céus, para agora se apresentar diante de Deus em nosso favor; não, porém, para se oferecer repetidas vezes, à semelhança do sumo sacerdote que entra no Santo dos Santos todos os anos, com sangue alheio. Se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo. Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam. (Hebreus 9.24-28, Nova Versão Internacional)

A carta aos Hebreus é um dos textos mais desafiadores para lermos no Novo Testamento. Afirmo isto sem medo de errar. As imagens narradas pelo autor nos fazem ir diretamente ao Antigo Testamento. E aí está a nossa dificuldade. Há ritos, práticas e elementos que não dominamos nem conhecemos muito bem. Por isso mesmo, ler a carta aos Hebreus torna-se tão difícil. Para se construir a imagem que o autor nos apresenta, é preciso primeiro conhecer esta tradição e estes elementos. Não obstante a dificuldade de se ler Hebreus, a carta é um convite ao reconhecimento de que Jesus é o Filho de Deus, o Messias prometido, que é superior a Moisés, a Arão e qualquer outro sacerdote que tenha existido ou que venha a existir. Ele é o salvador e nele perseveramos diante das adversidades. É o que devemos crer e ter em mente quando lemos a carta aos Hebreus.

O texto que lemos faz parte quarto bloco temático da carta aos Hebreus. Não temos como precisar sua data de escrita, nem seu autor. Provavelmente foi escrita antes do ano 70 d.C. e por um homem. O autor era alguém de profundo conhecimento, pois escreveu-a em grego e tinha conhecimento de todo o sistema doutrinário do Antigo Testamento. Das citações do Antigo Testamento feitas pelo autor, conclui-se que ele usou como base a Septuaginta, texto grego do Antigo Testamento. Ele escreve sua carta para uma comunidade hebreia, interessada em saber da ligação do Antigo Testamento com Jesus Cristo, que lhes foram apresentados pelos apóstolos. Somando-se os dados apresentados na carta, podemos concluir que eram judeus da dispersão, viviam provavelmente na Itália e vinham enfrentado sofrimentos por conta da saída de líderes da igreja e de uma constante investida dos judeus não cristãos querendo persuadi-los a retroceder na fé.

O nosso texto, Hebreus 9.24-28, está no meio de uma linha argumentativa do autor, que mostra a superioridade sacerdotal de Cristo em relação aos sacerdotes do Antigo Testamento. Ele aborda a superioridade da aliança em Cristo, a superioridade do tabernáculo de Cristo, a superioridade do sacrifício de Cristo e a eficácia deste sacrifício. Os versos que lemos tratam da superioridade do sacrifício de Jesus. Há ali a abordagem comparativa de como era no Antigo Testamento e como é agora, em Cristo Jesus. O autor esmerasse em mostrar que este sacrifício é “uma única vez, para tirar os pecados de muitos”.

Hoje vamos falar sobre expiação, que é o que trata o texto de Hebreus que lemos. No Antigo Testamento, expiação implica em cobrir o pecado mediante um resgate para que haja reparação adequada pelo delito cometido. Já no Novo Testamento é o cancelamento pleno do pecado com base na justiça de Cristo. Pouco se fala sobre a expiação dos pecados. Costumamos ouvir nossos irmãos pentecostais dizer frequentemente, diante das adversidades, que “o Sangue de Jesus tem poder”, cantamos que

O sangue de Jesus me lavou, me lavou.
O sangue de Jesus me lavou, me lavou.
Alegre, cantarei louvores a meu rei,
a meu Senhor Jesus, que me salvou!

Cantai Todos os Povos 86 e também que

Eis que no sangue lavados,
no seu poder e perdão,
os pecadores remidos
por Jesus têm com Deus comunhão.

Alvo mais que a neve!
Alvo mais que a neve!
Sim, nesse sangue lavado,
mais alvo que a neve serei.

Cantai Todos os Povos 98. Mas o que quer dizer o Sangue de Jesus nos lavou? Uma imagem vetero testamentária que os autores do Novo Testamento empregam para mostrar a eficácia do sacrifício de Jesus. Vamos, então, compreender o que é a expiação no Antigo Testamento, no Novo Testamento e o que ela é para nós hoje. Comecemos pelo Antigo Testamento.

A expiação no Antigo Testamento

A expiação no Antigo Testamento acontecia segundo orientações dadas em Levítico 16, que fala a respeito do Dia da expiação, o dia em que o sumo sacerdote fazia a expiação, em primeiro lugar por si próprio, e em seguida por todo o povo de Israel. A solenidade lembrava ao povo o alcance e a eficácia da graça de IAVÉ. Por meio da expiação o povo mantinha contato com seu Deus. Para compreendermos o que é a expiação dos pecados no Antigo Testamento, vamos entender alguns termos em nosso texto:

Santuário feito por homens: O autor de Hebreus se refere ao local de culto, onde o povo ia para adorar a Deus e sacrificar, pedindo o perdão de seus pecados. Ele faz uso desta expressão pois engloba as duas principais edificações feitas por homens para cultuar: o Tabernáculo e o Templo.

Sumo sacerdote: O principal dos sacerdotes, responsável, no sistema levítico, pelo culto, adoração e sacrifício na congregação de Israel. Sua maior função era de representar o povo diante de Deus e por eles fazer expiação dos pecados.

Santo dos Santos: Lugar mais sagrado do Tabernáculo e do Templo. Onde ficava a Arca da Aliança. Nele só podia entrar o Sumo Sacerdote no Dia da Expiação.

Sangue alheio: O autor faz referência ao sangue do animal que era sacrificado para expiar os pecados.

Sabendo então o que significa cada um dos elementos que o autor de Hebreus cita, vamos compreender como funcionava a expiação no Antigo Testamento. Para tal, vou contar a história de José, um José qualquer dos tempos do Antigo Testamento.

José vivia, como todo israelita, cuidando do rebanho de seu pai. Atento, desde pequeno, aos ensinos acerca da IAVÉ, José não deixava passar nada, nenhuma celebração, encontro ou reunião. No mês sete, Tisri (setembro e outubro), dia dez, José ia até o Templo, oferecer sacrifício para expiação de seus pecados. Tomava então um cordeiro, novo, sem defeito, e levava até o templo. Lá chegando, entrava na fila. O cheiro forte dos animais se misturava ao cheiro do incenso e dos perfumes, que se misturavam ao cheiro de sangue e restos jogados pelo pátio, que seriam posteriormente queimados. O sumo sacerdote, vestido com seu manto especial, sacrificava os animais e oferecia o sangue, no Santo dos Santos, a Deus, para que pudesse ser perdoado os pecados de quem oferecera.

Todo este ritual, forte e violento para nós hoje, era necessário para que o perdão fosse assegurado. Era como Deus se relacionava com seu povo. O sangue do animal era necessário pois substituía, equivalia, o sangue da pessoa, que morreria caso o juízo de Deus caísse sobre ela, por conta de seus pecados. Mas, e no Novo Testamento, como é?

A expiação no Novo Testamento

Fazendo uma analogia da imagem da expiação no Antigo Testamento, o autor de Hebreus nos responde esta pergunta de maneira clara: a expiação se dá em Cristo Jesus. Se o Sumo Sacerdote entrava no Santuário, Jesus entrou diretamente nos céus. Se o Sumo Sacerdote se apresentava diante de Deus no Santo dos Santos, Jesus se apresentou diante de Deus nos céus. Se o Sumo Sacerdote apresentava sangue de animais para expiar os pecados, Cristo apresentou seu próprio sangue. Assim, o que era celebrado anualmente, agora é celebrado de maneira definitiva: o sangue é derramado na cruz, o sumo sacerdote Jesus Cristo se apresenta diante de Deus não com sangue alheio, mas com seu próprio sangue e diz “está consumado”.

O entendimento neo testamentário de expiação se dá de que em Cristo, na cruz, se revela o amor de Deus aos homens, por meio do sacrifício de Jesus, sendo sua morte para nos dar o perdão. Ele o faz tornando-se ele mesmo o sacrifício. Ele o faz tomando o nosso lugar. Era para cada um de nós estar ali, mas ele está lá por mim e por você. A expiação neo testamentária se dá pelo sangue do cordeiro. Ele morreu, de uma vez por todas, para que não haja mais sacrifício, para que não seja necessário mais o Sumo Sacerdote entrar no Santo dos Santos, para que o sangue do filho de Deus venha a expiar de uma vez por todas os nossos pecados.

Diversos autores abordam a expiação no Novo Testamento. Uns aprofundam o tema, outros o abordam superficialmente, mas todos apontam para o sacrifício de Jesus. Se pudéssemos pegar o José, da história que contei há pouco, e transportá-lo no tempo até o tempo dos apóstolos, teriam que dizer a ele que não há mais necessidade de subir ao templo para expiar os pecados. Não precisa mais sacrificar, o sacrifício já foi feito de uma vez por todas. Em Cristo Jesus há o perdão para os nossos pecados. Nele a expiação é completa e definitiva. Tão definitiva que o autor de Hebreus nos afirma que

Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam.

Ou seja, para sofrer de uma vez por todas para que não mais haja sacrifícios de nenhuma espécie. Ele é o servo sofredor, nele há a expiação definitiva de nossos pecados.

Diante de tudo o que foi dito até aqui, o que devemos reter da expiação para os nossos dias?

A expiação hoje

A expiação hoje é a mesma do Novo Testamento. Cristo Jesus morreu, de maneira definitiva, para expiar os nossos pecados. Na carta de Paulo aos Romanos encontramos duas expressões que nos mostram a eficácia da expiação. Primeiro, Romanos 5.1-2:

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.

E segundo, Romanos 8.1:

Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.

Não há mais condenação. Cristo pagou o preço. Estamos salvos. Com ele vivemos e viveremos! Ele é a nossa esperança!

A expiação não desfaz o nosso caráter pecador. Somos pecadores. Vivemos em pecado. Devemos confessar a Deus o nosso pecado. Não o fazer é tripudiar do sacrifício de Jesus na cruz em favor de nós. Ao confessar o nosso pecado, sabemos que teremos o perdão. Não por mérito nosso, mas pelo poder do sangue de Cristo que expiou o nosso pecado. Por ele temos acesso ao perdão. Por ele temos acesso à transformação de vida. Lavados no sangue do cordeiro, somos chamados a nos arrependermos e vivermos uma nova vida.

A expiação não nos torna superiores aos demais homens e mulheres, pelo contrário, revela a cada um de nós a natureza pecaminosa e podre que nós temos. Revela nossa total depravação diante da santidade do sangue de Cristo. O fato de sermos lavados por este sangue nos leva a reconhecer que todo ser humano carece dele. Daí, devemos olhar para nossa sociedade e perceber que estamos errando, e muito. Vejo muitos cristãos compartilhando verdades que não condizem com quem foi lavado pelo sangue do cordeiro.

Diante das violências e atrocidades, vejo cristãos dizendo que “Bandido bom é bandido morto”. Não meu irmão, está errado! Bandido bom é bandido convertido ao evangelho. Diante da luta feminista, vejo mulheres cristãs dizendo “Meu corpo, minhas regras”. Não minha irmã, está errado. Meu corpo, minha vida nas mãos de Deus. Diante da corrupção vejo cristãos esbravejando e xingando “Político é tudo corrupto”. Não meu irmão, está errado! Político é tudo alvo de nossas orações. Diante dos movimentos de luta pelo direito dos homossexuais vejo muito cristão dizendo “Os homossexuais vão para o inferno”. Segundo os relatos bíblicos, vão mesmo. Mas você foi lá falar do amor de Deus para eles? Dizer a eles que os homossexuais vão tudo para minha lista de oração. Diante da dicotomia política que se instaurou no país, coxinhas de direita versus esquerda caviar, vejo muito cristão defendendo um e demonizando o outro. Está errado, irmão! Nem direita, nem esquerda, sou servo do Rei! Diante de tantos movimentos sociais, vejo muito cristão dizendo “Fulano me representa”, “Tal produto me representa” ou “Tal ideologia me representa”, mas está faltando quem diga “A cruz me representa”. Ela mesma, a cruz onde os meus pecados foram expiados. Onde minha culpa e condenação foram tomadas de mim e levadas para ela, a cruz, a terrível e infame cruz, a sangrenta e dolorosa cruz, a imunda e vergonhosa cruz. Esta cruz me representa!

Conclusão

A expiação dos pecados era necessária, no Antigo Testamento, para que Deus pudesse se relacionar com seu povo. Para tal, era preciso sacrificar, seguindo as orientações levíticas, para se obter a substituição e, portanto, a expiação dos pecados. No Novo Testamento, em Cristo Jesus, já não há mais o sacrifício. Ele morreu para, de forma definitiva, expiar os nossos pecados. Ele nos chama da condenação e morte para a salvação e vida. Nele temos a salvação. Nele vivemos!

Se no passado os israelitas ofereciam sacrifícios, hoje não há mais necessidade de fazê-lo. No entanto, vemos muitos pregadores e líderes convocando o povo a sacrificar bens materiais em favor de bênçãos materiais. Como se o sangue de Jesus tivesse sido derramado para que tivéssemos bens materiais. Ou pior, alguns afirmam “sangue por sangue, dinheiro por dinheiro”. Tais líderes zombam de Deus, acham que as glórias deste mundo salvarão as suas vidas. Não há nada, absolutamente nada que possamos fazer para nossa própria salvação. Basta aceitarmos esta graça maravilhosa e contemplarmos a cruz de Cristo, a expiação de nossos pecados e vivermos para anunciar, a toda e qualquer pessoa, que Cristo Jesus morreu para nos livrar da morte eterna e nos dar nova vida, hoje, já, com ele. Contemplemos a cruz de Cristo, ela nos representa!

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s