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Você sabia que no céu não tem cofre?

Se vires em alguma província opressão de pobres e o roubo em lugar do direito e da justiça, não te maravilhes de semelhante caso; porque o que está alto tem acima de si outro mais alto que o explora, e sobre estes há ainda outros mais elevados que também exploram. Eclesiastes 5.8

“Mim quer tocar, mim gosta ganhar dinheiro”. Eu sei, dói ler a frase, mas é assim que o grupo paulistano Ultraje a Rigor começa a canção “Mim quer tocar”. A canção fala, no seu todo, da necessidade de se ter mais e mais dinheiro. Vivemos na sociedade do ter, e não do ser. Ter, cada dia mais, dinheiro e bens. A vida, parece, resume-se a um imenso shopping onde compramos e valemos pelo que aparentamos ser e ter.

Você sabia que no céu não tem cofre? Eis aqui uma verdade que até mesmo nós, cristãos, nos esquecemos. Nesta lição vamos aprender que o dinheiro pode ser um deus, ocupando o lugar de Deus em nossas vidas. Aprenderemos também que o dinheiro tem o seu lugar em nossas vidas e que ser rico não significa ter posses, dinheiro e bens.

Jesus afirma, em Mt. 6.24, que não podemos servir a dois senhores, dizendo claramente que não podemos servir à Deus e às riquezas. O Mestre o disse vivendo em meio a uma sociedade muito diferente da nossa. Hoje, estamos imersos numa sociedade de consumo, onde você é o que você tem. Por isso a grande angustia de pessoas que não possuem determinados objetos e bens, por isso faz-se dívidas para se ter o melhor celular, o carro do momento e morar no melhor apartamento. Custe o que custar. Esta frase, aliás, expressa bem quem vive na dependência do dinheiro. Vou ter aquele celular, custe o que custar.

Retomo as palavras de Jesus: Não podeis servir a Deus e às riquezas. É um fato. Tudo o que se coloca no lugar de Deus, em nossas vidas, torna-se um deus. Muitos tem servido ao deus dinheiro. Por dinheiro, fazem incontáveis horas extras no serviço, ao invés de adequar o que ganha para sustentar sua família. Por dinheiro, se mente ao cônjuge, aos filhos, dizendo que pode ou não pode comprar tranquilamente. Por dinheiro, separam-se famílias. Por dinheiro, escolhe-se a profissão, a carreira e contraria-se até mesmos as vocações. Por dinheiro, tomam-se decisões equivocadas, acarretando em profundas e sérias consequências para a vida. O dinheiro não é um deus, mas o transformamos em tal.

É preciso muito cuidado quando tratamos do assunto dinheiro da porta para dentro de nossas igrejas. O dinheiro é parte importante de nossas vidas, uma delas, mas não é a principal. Precisamos compreender que o dinheiro em si não é um mal, se o fosse, seríamos proibidos, como cristão, de tê-lo. Mas o valor que imprimimos a ele, sim, é um mal. Daí as palavras do Apóstolo Paulo ao jovem Timóteo: “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1Tm. 6.10). Não é, portanto, o dinheiro, um mal em si, mas sim o amor que dedicamos a ele, e não a Deus. Se amo o dinheiro, farei tudo por ele. Se amo a Deus, o dinheiro será um meio pelo qual Deus abençoará a mim e também um meio pelo qual Deus permitirá que eu abençoe o meu próximo. Não é, portanto, o dinheiro um mal em si, mas sim o lugar que o colocamos em nossas vidas.

O nosso texto base é o início de uma constatação do autor de Eclesiastes do sobre a riqueza e seu perigo. “Dinheiro: quanto mais você tem, muito mais você quer”, a frase popular é uma ótima explicação para Ec. 5.10. Quem coloca o dinheiro como prioridade de sua vida torna-se um um insaciável “caçador de dinheiro”. Nunca será o suficiente. Nunca terá o bastante. Sempre vai faltar. Todo o dinheiro que conseguir, será pouco para pagar a conta do que quer. Tudo porque o dinheiro está no lugar errado. O que fazer, então?

Colocar o dinheiro no seu devido lugar. Para tal, é preciso reconhecer que tudo o que temos, não temos. Isso mesmo. Nada do que tenho é meu. Só tenho porque Deus assim permitiu que eu tivesse. Daí a conclusão do Ec. 5.18. Comer, beber e gozar daquilo que é fruto do que Deus nos deu. Há aqui um conceito que esbarra na nossa sociedade de consumo. Enquanto nos preocupamos como vamos pagar as contas, comprar os presentes e ainda viajar com a família, o Eclesiastes nos convida a viver com o que temos, e do que temos usufruir do melhor de Deus para nós. Quando eu inverto a lógica da sociedade de consumo, eu não passo a viver de aparências e status, eu passo a viver na dependência de Deus.

Quando colocamos o dinheiro em seu devido lugar, não temos medo de gastar o nosso dinheiro. Tão pouco o fazemos irresponsavelmente. Temos que ter crer no título desta lição: no céu não tem cofre. Não tem mesmo. De que adianta você trabalhar duro, o ano inteiro, e quando tem a oportunidade de tirar férias e desfrutar de momentos com a família, você as vende. Ou fica em casa, trancado na frente da televisão. Não vai ao parque, não faz uma viajem curta, ou se o dinheiro que você ganhou com o suor do seu trabalho permitir, uma viajem mais demorada. Não usufrui do que conquistou. Se quem muito gasta faz do dinheiro seu deus, quem só acumula também o faz. É o que diz Ec. 5.15-16. Trabalha, trabalha, trabalha só para acumular riqueza e dela não usufrui. Não é, portanto, o dinheiro um mal em si, mas sim o que fazemos com ele e isto pode nos trazer consequências boas ou ruins.

A frase acima é extraída do capítulo seis de O livro mais mal-humorado da Bíblia, de Ed René Kivitz. Ela sintetiza muito bem o conceito de riqueza bíblica. Ser rico não é o acumulo de bens, e o Eclesiastes deixa isto bem claro, tanto que não encontra sentido para a vida na riqueza, e ele era o mais rico de seu tempo! Ser rico é administrar o que se ganha de maneira que se tenha nos momentos de fartura e de escassez. A riqueza, portanto, está na sabedoria em administrar, e não nos bens de consumo que você tem.

Por que você trabalha? A pergunta parece boba, mas você já parou para se perguntar? Provérbios 16.26 diz que “A fome do trabalhador o faz trabalhar, porque a sua boca a isso o incita.” Ou seja, trabalhamos porque temos que nos alimentar, temos que viver. Mas, o que você faz com o fruto do seu trabalho? Essa é a diferença. Lembro-me de uma palestra que assisti, já faz muito tempo, sobre administração financeira pessoal. Nela, a palestrante dizia da importância de se cuidar bem dos recursos que temos. Lembro-me de uma conta que a palestrante fez, nos mostrando que devemos viver com 60% do nosso salário mensal. Aquilo me deixou surpreso. Mas a conta é simples: 10% é dízimo, que é a primeira coisa que todo cristão deve separar. 30% é poupança. Aqui, você pode ter duas contas de poupança. Por exemplo: uma para férias, que você sacará anualmente, outra para emergências ou aposentadoria, contanto que você consiga ter uma reserva. Os outros 60% serão para alimentar a família e pagar as contas. Nisto se configura um consumo saudável de uma família. Na ocasião, fiz uma conta rápida de cabeça e descobri que eu usava os 90% do meu salário. Nada ia para poupança. O que é um erro, pois se eu precisasse de algo urgente, não teria de onde tirar. Hoje, com muito esforço, estou adequando o meu orçamento para ter essa margem de poupança. Lembre-se, o importante não é ter, mas ter de onde tirar.

Esta matemática toda deve nos levar a refletir sobre nossa relação com o dinheiro. Se tudo o que ganho é gasto, há algo de errado. Se eu não tenho nem para o dízimo, há algo de muito errado na minha relação com o dinheiro e eu preciso parar e rever. Daí, os Devedores Anônimos nos ajudam com uma pergunta, que devemos fazer antes de comprar algo ou contratar algum serviço: eu quero ou eu realmente preciso? Porque se eu quero, pode esperar, posso economizar e comprar à vista depois. Mas se eu realmente preciso, daí não, daí é necessário para que eu possa alimentar minha casa ou proporcionar algo para meu sustento. Aí é questão de necessidade. Não é, portanto, o dinheiro um mal em si, mas sim um instrumento de bênção e, sendo fieis no dízimo e sabendo poupar, não nos faltará. Sabedoria para tal empreitada, Deus nos dá, é só pedir!

Nesta lição, aprendemos que o dinheiro pode ocupar o lugar de Deus em nossas vidas. Precisamos atentar para como lidamos com ele. O dinheiro só será um deus se eu assim o fizer, se não, ele será instrumento de benção para minha vida e a vida dos meus próximos. Por isso, aprendemos que devemos colocar o dinheiro no seu devido lugar. Que não podemos nos render às exigências e imposições da nossa sociedade, baseada no consumo. Por fim, vimos que riqueza não ter, mas sim saber administrar o que se tem.

O desafio que fica, para cada um de nós, é reservarmos um tempo para avaliarmos todas as nossas despesas e entradas. Verificar onde podemos economizar, onde podemos poupar e onde podemos investir. Lembre-se, mais que ter, o que Deus espera de nós, é que sejamos sábios administremos bem aquilo que ele nos confia. Que Deus, que nos sustenta e nos dá sabedoria e criatividade para viver, nos ajude a equilibrar nossas vidas financeiras.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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