Excesso de responsabilidade é coisa de gente frustrada

Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? (Eclesiastes 7.16)

Excesso de responsabilidade é coisa de gente frustrada. É isso mesmo. Gente que não consegue se ver sem um título na frente do nome, ou abaixo dele num cartão de visitas. Gente que não consegue se ver sem ter o mais moderno e atual carro ou telefone celular. Gente que não admite que outra pessoa saiba mais que ele. Todos estas pessoas são frustradas. Procuram saciar o anseio da alma em realizações que são como o vento.

Hoje vamos compreender que tudo o que foge da vontade de Deus é vaidade. A vaidade do “ser alguém”, do “ter a mais” e do “saber mais” está tirando o foco do povo de Deus daquilo que é sua missão primordial: servir.

Existem pessoas que adoram carregar títulos. Aliás, isto vem se espalhando pelo mundo corporativo e, por consequência, invadindo nossas igrejas. A pessoa que antes era a “recepcionista” da empresa, hoje é a “Supervisora sênior de primeira impressão”. Pode parecer loucura, mas acontece em determinadas empresas. Não muito diferente, ocorre nos diferentes níveis hierárquico corporativos. Já me deparei com cartões de visita cujo cargo da pessoa ocupava mais de duas linhas, sua função, no entanto, era resumida em uma ou duas palavras. Por que isso acontece? É a vaidade em querer “ser alguém”. Não basta ter um emprego, tem que ter uma função de destaque. Não basta ser a “recepcionista”, tem que ser a “Supervisora sênior de primeira impressão”. Não basta ser o irmão que conduz a igreja nos cânticos, tem que ser o “Ministro de Louvor e Adoração”. Não basta ser o presbítero ou pastor do rebanho, tem que ser o “Presidente do Presbitério e Presidente do Sínodo”.

A ânsia em ser alguém tira de nós o objetivo maior de nossas vidas como cristãos: não sermos ninguém. Para que em nós habite a vontade de Deus, nossa vontade precisa desaparecer. Para que haja transformação nas nossas vidas, nós precisamos morrer. Cargos e funções não representam nada no Reino de Deus. Enquanto olharmos para a estrutura da igreja de maneira piramidal, estaremos jogando por terra a unidade que Cristo nos pede em sua oração. (Jo 17.20-21) Cargos e funções, no corpo de Cristo, é apenas uma maneira de cada um cumprir sua missão e seu papel no corpo, não uma divisão de chefia. Cada cristão, do mais antigo ao mais novo na fé, precisa compreender que a igreja é chamada para a unidade e que os ministérios são dados como graça, mas trazem consigo responsabilidades. Pastores, presbíteros, diáconos, músicos, professores não são mais do que o membro que não possuí um desses títulos ou funções. Somos todos iguais. Da mesma forma, o Presidente da Assembleia Geral não é mais importante do que qualquer outro irmão na Igreja. Ambos têm seu valor e função no Reino de Deus. Ambos “são alguém” importante para o Reino, mas são simples operários do Senhor Jesus.

Não estou aqui, com tudo isto que escrevi, defendendo uma apatia profissional ou eclesiástica. Almejar uma colocação melhor no mercado de trabalho é válido, muito válido. Almejar um ministério também o é. Mas tudo tem seu tempo e fazer deste alvo a razão de nossas vidas é um erro grave. Servir a Deus, servimos em qualquer circunstância e função. Lembro-me, quando era seminarista no Presbitério do Ipiranga, de um ano em que o saudoso Presbítero João Américo, da IPI de Vila Dom Pedro, São Paulo, SP, fora nomeado Secretário Presbiterial da Família. A diretoria do Presbitério perguntou se ele aceitaria a função, ao que ele respondeu: “De todos os cargos possíveis numa Diretoria de Presbitério, já ocupei todos, no entanto, tenho certeza que nenhum outro me dará tanta alegria quanto servir às famílias de nosso Presbitério”. Da frase do Presbítero João aprendi que servir é um dever, não importando em qual função. Daí compreendo bem o que diz o Eclesiastes: “Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?” (Ec 7.16). Quem tem como meta servir a Deus, não se entrega à vaidade de querer ser alguém, ser o bom, mas sim serve ao Senhor da vida com alegria.

A vaidade em “ser alguém” está estreitamente ligada com a vaidade de “ter a mais”. Na lição quatro falamos do papel do dinheiro em nossas vidas. Aqui, quero destacar um ponto importante da relação com o dinheiro, que é o consumo. Não basta ter um celular, tem que acessar a internet, fazer chamadas simultâneas, ter rádio e televisão e ainda, se der, fazer ligação. Não basta ter um computador, tem que ser um notebook da marca mais famosa. Não bastar ter algo, tem que ser o mais famoso e mais caro. Isto me lembra um música antiga, Griffe, do Vencedores por Cristo, no álbum Sopro de vida. Um trecho dela diz “o pano da camisa é uma droga, mas a etiqueta faz a gente ser aceito em qualquer lugar”. Ter a mais sempre está relacionado com “ser alguém”. Não nos basta ter uma camisa, tem que ter a etiqueta da marca. Tanto isso é verdade, que se compra a marca pirata, que existe para satisfazer os anseios de quem não tem recursos para comprar a original.

Querer ter uma casa melhor, uma roupa melhor, um carro melhor não é pecado. O pecado é fazer disto a razão de sua vida, aquilo que te faz viver. O Eclesiastes nos ensina que ter a mais jamais irá satisfazer os anseios da alma: “Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas … e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2.4 e 11b). Você pode ter tudo aquilo que o dinheiro puder comprar, mas sem Cristo, tudo será vaidade, correr atrás do vento, mero prazer pelo prazer, sem a satisfação de uma vida que serve a Deus e ao próximo. A presente geração enfrenta o dilema de conviver com uma sociedade fundamentada no consumo e, no entanto, saber consumir de maneira racional. O apelo da indústria e do comércio é pela compra, não basta consumir, tem que consumir algo que lhe agrega um valor ou que diz algo a respeito o que você quer ser, ou, se pudermos ser mais franco, o que você quer mostrar aos outros que é.

É preciso derrotar o consumismo, a ânsia de se ter mais e mais. É preciso compreender que a vida do cristão está firmada em Cristo, e que o caráter inabalável perante o Senhor vale mais do que tudo que o ouro e a prata podem comprar. Ter a mais é uma fuga para os anseios da alma, que só encontra paz e segurança em Cristo. Precisamos rever nossa rotina de consumo e avaliar se o que queremos ter é, de fato, essencial para nossas vidas, ou não passa de vaidade, de um desejo de ser alguém que não fomos criados para ser.

“Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhe sucede a ambos.” (Ec. 2.14) O fim de todos nós é o mesmo. É isto que o Eclesiastes nos mostra. O muito saber não mudará o seu destino final. No entanto, há os que se vangloriam de saber mais, de serem donos do conhecimento. Espanta-me encontrar pessoas que carregam seus títulos de doutores e mestres com tanto orgulho que lhe pesam o semblante. Chegam a ser insuportáveis só de olhar. Pensam que seu saber está acima do bem e do mal, que suas vidas estão acima da vida dos demais. É um espanto perceber que cristãos tem se rendido à falácia da academia de que os acadêmicos são uma elite cultural e, por isso, estão acima da média dos demais. De fato, cursar uma faculdade, um mestrado e doutorado é um privilégio ainda para poucos, mas isto não torna a pessoa maior ou menor que a outra. É triste ver que o mundo acadêmico tem cegado a fé de muitos cristãos. Fé e conhecimento devem andar de mãos dadas. Esta é a recomendação de Paulo à Timóteo. Abra mão de um e naufragará na outra. (1Tm 1.18-20).

Saber mais que o outro não nos torna melhores que o outro, pelo contrário, nos torna ainda mais responsáveis por aquilo que falamos e vivemos. Uma coisa é agir na ignorância. Outra, bem diferente, é agir com conhecimento de causa, e isto para o bem ou para o mal. O saber nos tira da escravidão do desconhecimento e nos coloca diante da responsabilidade de desvendar os olhos a outros. É o que difere o astuto do sábio, no entanto, o fim é o mesmo. Portanto, adquirir conhecimento, todo o conhecimento possível, não nos preencherá o vazio da alma, nem responderá aos anseios de nossas vidas. O conhecimento é importante na medida que ele se torna instrumento de graça e bênção na vida do outro, e não de poder e opressão. As pessoas mais sábias com quem tive contato, os professores que mais me marcaram por seu conhecimento, não eram pessoas inatingíveis ou prepotentes. Eram loucamente apaixonadas pelo que faziam, profundamente envolvidos com o que ensinavam e grandiosamente simples no falar e no agir. O conhecimento não lhes era um escudo ou muralha, lhes era um instrumento de graça na vida dos outros. Da mesma forma, os pastores mais sábios que conheci eram os mais humildes no agir, no pregar e no viver.

O mestre dos mestres não foi uma pessoa arrogante, que se achava acima dos demais. Segundo o relato do Evangelho de Mateus, as multidões se maravilhavam dos ensinos de Jesus, porque ele ensinava com autoridade, e não como os escribas, que tinha conhecimento, estudavam e pesquisavam, mas não viviam o que criam. (Mt 7.28-29) Como cristãos, devemos nos espelhar no mestre dos mestres. A autoridade que o conhecimento nos outorga só pode ser adquirida quando se vive o que se aprende. De que adianta conhecer tudo, todos os mistérios da vida, se o amor de Deus não for o fundamento de tudo? Se a casa for edificada na areia do conhecimento acadêmico, de nada adiantará, mas se for firmada no alicerce do amor de Deus, será uma casa com portas abertas a abrigar aqueles que carecem do conhecimento que liberta o cativo da ignorância e o trás para a luz de Deus.

Cargos, funções, bens materiais, conhecimento. Tudo o que temos ao nosso alcance hoje deve ser almejado com sabedoria e temor. Transformar em razão de ser de nossas vidas tudo isso nos transformará em pessoas frustradas, que não conseguem dar conta de suas responsabilidades como adultos e fazer frente aos anseios da alma, com a maturidade que o Evangelho e o amor pedem de nós.

Excesso de responsabilidade é coisa de gente frustrada. Quem muito almeja, pouco tem. Busquemos a simplicidade de vida, que nos é oferecida por Jesus. Nele temos as respostas para o anseio de nossa alma e com ele temos a força e a sabedoria para enfrentarmos as dificuldades de nossas vidas. Não nos apeguemos a cargos, funções, bens materiais e conhecimentos, apeguemo-nos à cruz de Cristo, ela é a razão de ser da nossa vida!

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.