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A desorganização nos faz pecar

Porque dos muitos trabalhos vêm os sonhos, e do muito falar, palavras néscias. Eclesiastes 5.3

“Deixa a vida me levar, vida leva eu, sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu” é o samba do Zeca Pagodinho e o lema de muita gente, inclusive cristãos. De fato, temos que ser gratos a Deus por tudo o que temos, mas não devemos, necessariamente, nos deixarmos levar pela vida. Muitos se deixam levar e perdem o controle de suas próprias vidas, tudo porque são pessoas desorganizadas.

O nosso texto base é parte de um bloco que fala sobre os votos precipitados, ou seja, assumir compromissos de maneira precipitada, sem avaliar, sem pensar. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduz assim Ec 5.3:  “Quanto mais você se preocupar, mais pesadelos terá; e, quanto mais você falar, mais tolices dirá”. Há aqui uma recomendação para que pensemos bem antes de assumirmos compromissos, principalmente se você não organiza sua vida em uma agenda.

O conceito de desorganizado pode variar muito, pelo menos é o que a maioria dos menos organizados costumam dizer para os mais organizados. Quem nunca se deparou com uma mesa totalmente bagunçada e ouviu o dono dizer “eu me acho nessa bagunça”? De fato, para uns, há uma lógica na ilógica desarrumação de uma mesa. Mas o cuidado que devemos ter, na organização pessoal, vai além de uma mesa ou quarto arrumados. Precisamos atentar para que tenhamos consciência do rumo que nossa vida está tomando. Isso envolve confiança em Deus, sonhos e planejamento.

Diz-nos o evangelista Lucas que “Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços”. (Lc 10.40). Já viu aquela pessoa inquieta, que não consegue parar para descansar e avaliar sua vida? Pois é, ela é, via de regra, uma pessoa desorganizada. Tal qual Marta, que não conseguia parar para ouvir Jesus, muitos não conseguem parar o que tem para descansar e meditar na Palavra de Deus. Organizar-se é permitir que Deus dite a agenda de nossas vidas. Sabemos que se buscarmos Deus em primeiro lugar, tudo nos será acrescentado, no entanto, insistimos em inverter essa lógica. Por que? Porque nos fazem acreditar que a agenda da sociedade é mais importante que a agenda de Deus. Que cargos, ocupações e funções eclesiásticas são mais importantes que família, amigos e irmãos na fé, que carecem de uma palavra de esperança e amor. Precisamos reorganizar a nossa agenda, colocando em primeiro lugar a vontade de Deus.

Organização pessoal está intimamente ligado com o que sonhamos para nossas vidas. Você tem sonhado? Não só ao dormir, mas você tem sonhado acordado? Qual o sonho para sua família? E para seus filhos? O que você tem sonhado para seus pais? E para seus amigos? Quando você pensa na sua vida, você tem mais sonhos ou pesadelos? Talvez seja hora de parar e avaliar sua vida: ter uma vida minimamente organizada nos dará a oportunidade de olhar para o futuro e sonhar acordado. Não é dizer para Deus o que ele deve fazer em nossas vidas, aí seria vaidade (Ec 5.7), mas é dizer a ele os sonhos do nosso coração para nossa vida e, se sonharmos com Deus, sonharemos segundo a sua vontade.

Mas do que adianta sonhar, se não planejarmos? Onde você se vê daqui dois anos? E daqui cinco anos? E daqui dez anos? Muitos respondem essa pergunta afirmando que “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor” (Pv 16.1) e dizem que não adianta nada planejar. Errado! Adianta sim, o texto não nos diz para não planejarmos, ele diz que a resposta do nosso planejamento vem de Deus. Portanto, há a necessidade de planejarmos nossas ações, nosso futuro. Não à toa temos muitas pessoas que chegam à aposentadoria despreparadas para a redução da renda familiar, o aumento dos gastos com saúde e outras despesas. Não planejaram, não se organizaram para viver bem algo que é natural para todos nós, a aposentadoria. Somente com organização, sonhos e planejamento, sempre confiando em Deus, poderemos evitar o pecado de sermos servos infiéis e relapsos.

A desorganização na vida profissional é, na maioria das vezes, reflexo da desorganização pessoal. Quando Jesus falou sobre a necessidade do discípulo renunciar a tudo o que tem para seguí-lo, ele falou de avaliar um projeto de vida, e como exemplo, deu o planejamento de uma obra: Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? (Lc 14.28). Você tem avaliado sua vida profissional, sabendo se terá meios de concluí-la?

Quando criança, sonhamos em “ser algo” quando crescer. Crescemos, nos capacitamos, e iniciamos uma vida profissional. No entanto, muitos ficam inertes em suas vidas profissionais, por mero comodismo e falta de planejamento e organização. Vivem reclamando de seus trabalhos, dos colegas e dos chefes, não vêem perspectivas de mudança e, via de regra, não assumem a responsabilidade de sua vida profissional não lhe darem satisfação. Ao olhar para vida profissional de pessoas assim, vemos que elas se deixaram levar pela vida, e não enfrentaram o desafio de melhorar sua vida profissional. Não estou falando apenas de se buscar uma promoção, mas principalmente de ser criativo e inventivo em nossos trabalhos. A desorganização profissional não nos dá a oportunidade de sermos criativos, pois estamos sempre perdidos em meio à bagunça de nossas vidas.

De certo alguns dirão que a criatividade é estimulada diante do caos. De fato, o é, mas não diante da desorganização. O caos é a situação absurda que carece de direção, a desorganização é a situação possível que deixamos de organizar, para que pudéssemos nos ocupar da direção a dar ao caos. A criatividade no meio profissional carece de um mínimo de organização e planejamento. Ser melhor remunerado, ter um emprego melhor ou ter um emprego que nos satisfaça pessoalmente poderá ser alcançado mais facilmente se nos organizarmos e nos planejarmos para tal, caso contrário, ficaremos na lamúria de trabalhar com algo que não gostamos, ganhando o que não achamos que merecemos e nos lamentando por não mudarmos de vida profissional. Cabe a cada um de nós avaliarmos nossas vidas, nos organizarmos pessoal e profissionalmente para vivermos de maneira digna da vocação e do dom que Deus concedeu a cada um de nós.

“Porque, como na multidão dos sonhos há vaidade, assim também, nas muitas palavras; tu, porém, teme a Deus”. (Ec 5.7) Temer a Deus. Como está sua vida devocional? Muitos responderão “que pergunta é essa?” Grandes homens e mulheres de Deus, ao longo da história, foram pessoas de vida devocional. Liam a Bíblia, meditavam e oravam. Tinham uma vida devocional, ou seja, uma vida de devoção. Isto se refletia no testemunho em suas vidas pessoais e profissionais, bem como na vida da Igreja de Cristo. Foram pessoas consagradas, mas também pessoas normais, de carne e osso. Não eram super mulheres ou homens gloriosos, eram pessoas simples, tal qual você e eu.

Manter uma vida de celebração é importante. Celebrar na Igreja, nos cultos e nos encontros. Mas alimentar nossa vida apenas nas celebrações é pouco, muito pouco. Podemos nos estender e buscar o ensino da Palavra de Deus, na Escola Dominical, nos pequenos grupos, no discipulado. Mas ainda será pouco para alimentar a nossa vida. Se não buscarmos o alimento diário, não teremos forças para suportar as adversidades. É uma questão de sustento de nossas vidas. Muitos de nós abre mão de viver a fé que professamos no dia a dia, não buscam na Palavra de Deus e na oração o fundamento para suas vidas. Não temem a Deus. Frequentam a Igreja, falam muito, querem cargos, funções, mas não querem viver conforme a vontade de Deus. Estão desafiando Deus ao manter desorganizada sua vida devocional. Querem dedicar-se no trabalho ao Senhor, mas não querem dedicar-se a andar com seu Senhor.

A desorganização devocional acarreta em prejuízos enormes na vida da Igreja e do povo de Deus. Líderes que não possuem uma vida devocional estão ensinando pessoas a respeito da vontade de Deus. Como falar daquilo que se conhece “só de ouvir” (Jó 42.5)? A desorganização devocional nos faz procurar atalhos. Passa-se a ouvir canções e programas de rádio, a assistir programações na TV, tudo de cunho religioso, e aceita-se tudo como sendo verdade, pelo simples fato de ser “evangélico”. Música e programas de TV e rádio não excluem uma vida devocional. Não troque sua vida com Deus por uma vida com um artista ou pastor. Quem nos alimenta e nos sustenta é Deus, ele é o único capaz de nos mostrar como organizar nossas vidas. Ele o faz pela vida dos artistas e pastores? Também, mas ele é Deus pessoal e quer que nos relacionemos pessoalmente com ele, e não por meio de intermediários.

A desorganização nos faz pecar porque ela nos impede de fazer aquilo que devemos fazer. Ela nos impede de sonhar e lutar pelos sonhos de Deus para nossas vidas. Ela nos impede de mudarmos o rumo de nossa vida profissional, sendo mais criativos e produtivos. Ela nos impede de cultivarmos uma vida devocional, nos levando a substituir a Palavra de Deus pela palavra de homens e mulheres.

Organizar nossas vidas depende de nós. Eu preciso ter consciência que minha vida, desorganizada, me trará mais prejuízos que vantagens, que perderei oportunidades e ainda desagradarei a Deus. Busquemos organizar nossas vidas. É um processo. Leva tempo. Mas não é impossível. Deus nos dá a direção certa para tal empreitada: “tu, porém, teme a Deus” (Ec 5.7). Que temor ao Senhor seja o princípio da re-organização de nossas vidas.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

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