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Discípulos não são capazes de tudo

Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei? Traze o teu filho. (Lucas 9.41)

Discípulos não são capazes de tudo. A falta de fé, humildade e entendimento são capazes de derrubar o discípulo de Cristo.

Todos nós conhecemos histórias de superação para contar. Histórias de superação nos comovem nos mostram do que o ser humano é capaz de fazer quando olha para a vida e não para as circunstâncias.

O texto para nossa lição de hoje não é bem uma história de superação, mas sim de fracasso. Um grupo de discípulos de Jesus não é capaz de enxergar a vida onde só havia morte eminente. Que faço eu da vida sem você? Pode até ser o verso de uma conhecida canção popular, mas se encaixa bem para resumir o texto de nossa lição de hoje. Um convite a mantermos nossa fé firme, sermos humildes e buscarmos a sabedoria que vem de Deus.

O texto que lemos faz parte de um bloco mais amplo e compõe um dos textos mais fascinantes dos Evangelhos: o episódio da Transfiguração, que se inicia nos vero 28 e segue até o verso 43. Estes textos não podem e não devem ser lidos e interpretados de maneira separadas. Eles compõe um bloco de exemplos e ensinos acerca da glória e da missão de Jesus e, também, daquilo que nós devemos anunciar e viver.

Um ponto de destaque no texto de Lucas são as duras palavras de Jesus: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei?” Há um misto de dor e indignação nas palavras do Mestre. O fato de dizer “Ó geração!” aponta para uma indignação não apenas com os nove discípulos que não conseguiram expulsar o demônio, mas com todo que compunha aquele episódio: o pai do menino não conseguia ter suficiente fé no poder curador de Deus; os escribas, que estavam ali, desdenhavam da falta de poder dos discípulos, ao invés de demonstrar compaixão e com os nove discípulos, incapazes de exercer sua fé, não pondo seu coração na oração perseverante.

Sem fé é impossível agradar a Deus. Hebreus 11.6 é bastante conhecido dos cristãos e deve ser lembrado sempre. Aqueles discípulos não conseguiram expulsar o demônio pois lhes faltou fé suficiente no que estavam fazendo. Não foram capazes de alinhar o ensino que receberam de Jesus com suas práticas. Temeram a situação? Talvez. Temeram o demônio? Talvez. Mas o fato é que a falta de fé lhes foi apontada pelo mestre. “geração incrédula” diz o verso 41.

Padecemos de falta de fé. Não alimentamos e não fortalecemos nossa fé. Como podemos adorar e louvar a Deus sem desejar ter uma fé viva e pulsante em nós? Cantamos que “o meu louvor é fruto do meu amor por ti Jesus, de lábios que confessam o seu nome”. Faltou aos nove discípulos que ali estavam a certeza deste amor por Cristo e o confessar que ele é o Senhor. Estes mesmos discípulos, após a morte e ressurreição de Jesus, passam a confessá-lo e espalham a mensagem por todo canto que havia. Uma fé transformada pela relação com Deus e que ganha vida com a conversão de seus corações e mentes à vontade de Deus.

Não podemos nós, diante de circunstâncias tão absurdas, como um possuído, deixar que a nossa fé esmoreça, mas devemos alimentá-la com aquele que é o autor da nossa fé, aquele que deu seu único filho para que tenhamos vida. Fé que deve ser exercitada, como exercitamos a mente e o corpo, para que não atrofie e morra, para que produza frutos de vida. Muitos de nós fomos profundamente tocados em nossas conversões, despertamos para a vida e nos fascinamos com a nova vida em Jesus. Com o passar dos anos, nos acomodamos em nossas dificuldades e falhas e não buscamos o crescimento de nossa fé e conhecimento. Achamos que sabemos o suficiente e que nos basta uma vida de agenda cristã e nos esquecemos da vida com Cristo. Falta-nos fé, e falta-nos também humildade.

Faltou aos discípulos humildade para enfrentar aquela situação. Imagino que não devia ser fácil enfrentar os escribas, um pessoal conhecido por sua arrogância, mas enfrentar arrogância com arrogância nunca resolveu nada. Também creio que não deva ter sido fácil enfrentar o menino possuído. Ainda mais se o tom da conversa foi o de se exaltar como discípulos de Jesus e não exaltar o próprio Cristo como o único poderoso para nos libertar das prisões. Seja qual for, o fato é que sem humildade não se pode ser discípulo de Cristo. Discípulo arrogante, não é discípulo de Cristo.

Tenho acompanhado de perto, desde meados da década de noventa do século passado, o meio religioso evangélico brasileiro. Tenho assistido a uma transformação cada vez mais triste do meio evangélico, o que tem me distanciado cada vez mais deste grupo. Pessoas que afirmam ter primazia sobre as demais pelo fato de serem filhos de Deus. Já trabalhei com algumas que oravam, todo dia de manhã, do outro lado da calçada, pedindo a Deus que não permitisse que outros fossem promovidos e que ele se tornasse chefe ali, para que pudesse promover uma limpeza espiritual naquela empresa. Quando a pessoa me contou isso, ganhei um inimigo, pois disse que Deus não espera que façamos uma limpeza espiritual nos outros, mas que transformemos nossas vidas.

Este comportamento arrogante, presunçoso, nada se parece com o Evangelho de Jesus. Somos chamados a servir, não a ser servidos. Os discípulos pesaram que por suas próprias forças e determinações seriam capazes de expulsar o demônio. Foram vencidos por ele. Quem determina o que quer seja, mesmo em nome de Jesus, termina derrotado pelo demônio. Porém, quem reconhece que só Jesus é capaz de transformar toda e qualquer circunstância, este já é mais que vencedor em Cristo Jesus! Fé e humildade devem andar juntas e com elas, a sabedoria.

Faltou aos discípulos sabedoria para encarar a situação. Deixaram-se influenciar pelo ambiente, pelo momento e não conseguiram manter o foco no menino, que era principal preocupação naquele momento. Se no alto do monte, no texto que precede o da lição de hoje, Deus afirmava: “este é meu filho”, aos pés dele, os discípulos eram incapazes de olhar para o filho daquele pai desesperado. Viam o demônio, não viam a vida. Faltou sabedoria para encarar o que era necessário encarar. Jesus foi direto e curou e libertou aquele menino. Não eram as circunstâncias, mas sim a vida que importava e ainda importa.

Muitos de nós não agimos com sabedoria em relação à nossa fé. Não existe fórmula mágica, é o estilo de vida com Cristo que importa. Não existe porção mágica, existe vida transformada. Não existe palavra de poder, existe o poder de Deus. Nós, assim como aqueles discípulos naquela circunstância, nos apegamos às coisas, às opiniões, ao que não é para se apegar. Quem vive com Cristo sabe discernir entre o que é e o que não é demônio, o que é e o que não é necessário para enfrentá-lo. Ao contrário do que muitos pensam, o demônio não está preocupado em aparecer num palco de Igreja evangélica nem em um programa de televisão evangélico, ele já tem os programas de maior audiência na televisão nas mãos dele, para sutil e disfarçadamente invadir nossas casas e tentar destruir os valores do Reino de Deus

Você sabe porque eu não creio em cristão que “se manifesta possesso”? Porque aquele a quem Cristo salvou o mal não tem domínio sobre ele. Você sabe porque eu creio que o demônio está menos preocupado em “manifestar-se em pessoas”? Porque ele prefere dominar suas vidas por meio dos vícios e dos valores deturpados. É preciso sabedoria para perceber as sutilezas do demônio e encará-las sem medo, porque é em nome de Cristo que enfrentamos o mal, não em nosso nome. Faltou sabedoria aos discípulos para não se apegarem ao que viam, mas sim, se apegarem ao Cristo que liberta todo e qualquer cativo.

Discípulos não são capazes de tudo. De fato, não o somos e este é o primeiro passo para reconhecermos que dependemos, em tudo, de Cristo Jesus. Ele é o dono de nossas vidas, ele é o mestre. Discípulos são falhos e não podemos nos apegar às nossas falhas, agindo como coitados, mas sim, nos apegarmos em Cristo e agirmos como servos, dispostos a olhar para a vida e não para a morte, a olhar para o filho e não para o demônio, a olhar para o pai, e não para os escribas ou as circunstâncias.

Retomo aqui o verso da canção, que disse no início do sermão: que faço eu da vida sem você? A pergunta, porém, peço permissão para mudar: que faço eu da vida sem Jesus? Quem temos colocado à frente de nossas vidas? O que determinará o nosso sucesso como cristãos não é o número de vezes que oramos ou lemos a Bíblia, mas sim a quantidade de vezes que vivemos como se orássemos e lêssemos a Bíblia a todo instante. A vida com Cristo é uma vida de transformação e não de conquistas e famas temporais. A vida com Cristo é a vitória eterna e não tememos o mal que nos possa vir, pois ele está conosco.

Discípulos não são capazes de tudo, graças a Deus. A ele pois, rendamos graças pela vida que temos nele, é a expressão do hino 225 do Cantai Todos os Povos, em sua segunda estrofe:

Graças pelo azul celeste
e por nuvens que há também;
Pelas rosas do caminho
e os espinhos que elas têm.
Pela escuridão da noite,
pela estrela que brilhou,
Pela prece respondida
e a esperança que falhou.

Que possamos em tudo render graças ao Senhor, porque sabemos a quem servimos: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”. Que as palavras de Romanos 6.14 sejam verdade em nossas vidas.

 

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

 

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