Artigos

Discípulos sabem seu lugar

Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande. (Lucas 9.48)

Discípulos sabem seu lugar. Existem alguns requisitos para nos colocarmos em nosso lugar e precisamos vivê-los.

Toda operação policial tem um padrão e um protocolo de ação. Cada agente sabe seu papel e o que fazer em casos extremos. Para onde ir, o que levar e como proteger. São treinados à exaustão para cumprirem seu papel de proteger, resgatar ou capturar alguém. Cada um sabe seu lugar e sua função, e a cumpre com dedicação e zelo. Deles dependem a segurança e o sucesso de suas tarefas e operações.

As operações policiais, ou do exército, podem ser usadas como contraste com a carreira cristã. Cada um de nós tem uma função determinada na batalha que é trazer pessoas para Cristo. Devemos nos empenhar com zelo e dedicação para cumpri-la e, acredite-me, o que Deus delegou a você ele sabe que você é capaz de realizá-lo com amor e maestria, pois ele sabe os seus dons e talentos. No entanto, alguns cristãos acham que são superiores ao demais e não precisam se empenhar na missão de fazer novos discípulos. Se acham os chefes, os superiores aos demais.

“Who the boss?” é uma expressão americana que expressa bem o texto para nossa meditação nesta noite. Numa tradução livre, “Quem é o chefe?” é uma expressão que desportistas e jovens americanos usam para se reafirmarem sobre seus oponentes, um grito de vitória, chamando para si os méritos de uma vitória. Esta expressão, embora não esteja no texto que leremos, cairia bem aos discípulos que discutiam entre si para saber quem era o maioral entre eles.

Os discípulos conviviam com Jesus, o acompanhavam, no entanto, parece que ainda não haviam compreendido a necessidade de receber aquela mensagem e vivê-la. Não conseguiam ver o momento que viviam, pois suas expectativas e ansiedades estavam à frente de Jesus, que estava ali, com eles, a todo instante. Não conseguiam viver a mensagem que lhes era ensinada porque seus corações estavam tomados de outras prioridades que não as do Reino. Por isso Jesus os chamou, para mostrar-lhes e ensinar-lhes as prioridades do Reino de Deus.

Como receber a Cristo em nossas vidas? A pergunta parece ter uma resposta óbvia, mas seus desdobramentos não o são. Receber Cristo em nossas vidas é abrir mão de nossas vontades para que reine a vontade de Deus. Sabemos disso, ouvimos sobre isso sempre, mas não o tornamos verdade em nós? Por que? Porque insistimos em fazer valer a nossa vontade, nos julgamos adultos, nos julgamos capazes, auto suficientes, e não o somos. Enquanto mantivermos vivo em nós o desejo de sermos os donos de nossas vidas, não a teremos, pois ela não é nossa, pertence a Deus.

Por isso a necessidade de nos colocarmos em nosso lugar e nos tornarmos crianças, para reconhecermos que tudo depende de Deus, dele é a nossa vida e ele tem o poder, o domínio, a honra e a glória. Sem ele, nada somos, receba Jesus em sua vida deixe-o transformar todo o seu jeito de viver e de agir. Não se deixe levar por uma religiosidade vazia, que alimenta seu ego, mas coloque-se como discípulo de Jesus, disposto a abrir mão de tudo e colocar-se em seu devido lugar para que o Espírito Santo transforme a realidade de nossas vidas e nos use como instrumento vivo na transformação da realidade da vida do nosso próximo.

O quão disposto eu estou em aceitar o meu próximo? A resposta a esta pergunta nos posiciona em nossa relação com Deus. Os discípulos julgavam-se superiores aos demais. Tão superiores que se achavam no direito de discutir qual deles seria o maioral no Reino de Deus. Estavam tão cegos quanto ao poder, que não conseguiam compreender os ensinos de Jesus. Ao colocar uma criança no meio deles e apontar para ela e dizer que “quem recebe uma dessas crianças, como eu estou fazendo, também me recebe”, Jesus aponta para a necessidade de sermos como elas, mas também de aceitá-las.

Padecemos de um mal que vem, cada dia mais, se intensificando na vida da sociedade, refletindo-se na Igreja. Somos cada dia mais individualistas. Não temos a capacidade de aceitar nosso próximo. O afastamos de nós, preferimos não nos envolver. Como diz Engenheiros do Hawaii “erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia”. Pensamos que nos protegemos, nos isolando, quando na verdade estamos cada dia mais vulneráveis, sem amigos, sem ter ninguém por perto para convivermos. Nos enchemos de argumentos para afastar as pessoas, quando deveríamos aproximá-las e acolhe-las, mostrando-lhes Cristo em nós.

Durante anos, a Igreja foi implacável com pecadores. Expulsões, humilhações, provas incontestes de falta de amor e humildade. Durante anos afastamos o pecador ao invés de recebê-lo, lançamos fora a criança, ao invés de acolhe-la e ensiná-la na vontade de Deus. Vivíamos sob a égide de um moralismo farisáico e sob o pretexto de sermos santos, expulsávamos os que Deus chamava de seus filhos. Somos chamados a ser discípulos que acolhe o perdido e o pecador, acolhe a qualquer pessoa, sem distinção, sem preconceito de qualquer tipo, acolhe em amor e em humildade.

Ao discutir qual deles seria o principal, o maior, os discípulos queriam saber quem teria lugar de destaque, a hierarquia entre eles, quem mandaria mais, quem estaria debaixo de quem. É relação de poder, de senhor-servo. Mas esta relação, no Reino de Deus, só existe entre o Rei Jesus e seus discípulos. O que faltou aos doze foi reconhecer que eram apenas mais um, que o fato de estarem mais próximos do mestre eles não tinham preferência sobre os demais, pelo contrário, em seus ombros pesava a responsabilidade de serem os proclamadores dos ensinos de Jesus.

A diferença de um cristão para um não cristão é que o cristão tem consciência do seu pecado, e o não cristão não a tem. Portanto, não podemos nos achar mais que os demais. Não podemos pensar que, pelo fato de sermos filhos de Deus, somos preferidos do pai, porque não o somos. Ele veio buscar e salvar o perdido, nós somos instrumentos de Deus para esta busca, somos a “força tática de resgate” que vai em busca daqueles que estão caminhando a passos largos para a morte eterna e, para resgatá-los, é preciso humildade para reconhecer-se como um ex-viajante rumo à morte eterna, para fazer-se fraco para com o fraco a fim de resgatá-lo, não por nosso mérito, mas para honra e glória de Jesus.

Espírito humilde é o que tem aqueles que recebem a Cristo e aceitam seu próximo, anunciando Jesus em toda e qualquer ocasião, não sendo tolerante com a morte eterna, pois sabe que a vida eterna é que temos à nossa espera. Só quem tem o espírito humilde não se deixa seduzir pelas estruturas de poder da instituição igreja, mas se coloca nelas, e apesar delas, para servir ao Rei da Glória.

Discípulos sabem o seu lugar. Não buscam seus interesses pessoais mas recebem Cristo para terem a humildade necessária para aceitar seu próximo e ser bênção e auxílio na vida dele. Não podemos incorrer no erro dos discípulos de acreditar que há uma hierarquia de discípulos no Reino de Deus, ela não existe. Títulos eclesiásticos não são permissões para abusos, mas pesos de responsabilidade que recai sobre nossos ombros. O próprio Jesus afirma, em Lucas 12.48: “Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. Cargos e funções são responsabilidade maiores para quem os recebe, perante os demais e principalmente perante Deus. Discípulos que não reconhecem que nada é deles e tudo é do Pai, não serão capazes de cumprir seu chamado. Por isso Jesus chama uma criança: humildade, amor, empenho, sinceridade. É como devemos ser, é quem devemos receber.

Hoje encerramos a revista Discípulos. Ao longo de doze lições tivemos a oportunidade de aprender sobre o chamado, a edificação e o envio dos discípulos. Tal qual Cristo fez com seus discípulos no passado, hoje ele nos chama, edifica e envia, todos os dias, a fazer novos discípulos. Somos chamados, imperativamente, para um determinado fim. Não somos perfeitos, mas somos separados e bem fundamentados pelo Mestre para fazermos o bem, amarmos o próximo darmos bons frutos. Por isso, discípulos cumprem uma missão, a de serem agentes dos milagres de Deus, reconhecendo-se incapazes de fazer tudo e sabendo muito bem o seu lugar no Reino de Deus. Ao longo das doze lições rodamos em torno de uma única premissa e ensino, que espero, tenha ficado muito claro para você: somos discípulos chamados a fazer discípulos. Cumpramos nossa missão.

Reverendo Giovanni Alecrim
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s