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Igreja em Células e Tradição Litúrgica. Incompatíveis?

Por André Tadeu Oliveira*

Se analisarmos a forma de adoração predominante na maioria das igrejas celulares, veremos que a informalidade reina. O culto, em muitas ocasiões, se assemelha a um show, a um momento de entretenimento. Parece existir um grau de incompatibilidade entre esse modo dinâmico de ser igreja e um programa litúrgico tradicional e solene, como nosso culto reformado. Mas essa ideia é completamente falsa. A história é capaz de desmenti-la.

Sabemos que a igreja cristã nasceu sob a égide de pequenos grupos. Em Atos 2.46, vemos que os primeiros cristãos, junto com o culto realizado no templo, se reuniam de casa em casa, onde partilhavam a refeição eucarística com extrema alegria. Obviamente o atual modelo de igreja em células, com todos seus desdobramentos, ainda não era uma realidade. Mas encontramos na igreja primitiva os alicerces para uma comunidade centrada em pequenos grupos de comunhão. Com o passar do tempo, tal modelo foi substituído pelo culto celebrado exclusivamente em paróquias, basílicas e catedrais.

A partir do século 17, presenciamos o retorno da igreja “de duas asas”, com os pequenos grupos formados convivendo harmonicamente com liturgias tradicionais e elaboradas. O primeiro exemplo nos é dado por meio do movimento pietista. O pietismo nasceu dentro da Igreja Luterana Alemã. Era um protesto contra uma igreja dogmática e distante dos crentes. Para suprir esses problemas, os luteranos pietistas organizaram os chamados “colégios de piedade”, na verdade, grupos pequenos de oração, comunhão e estudo da bíblia. Tais grupos renovaram a vida da igreja alemã, trazendo um verdadeiro avivamento em seu seio. Contudo, os pastores e crentes pietistas mantiveram a tradicional liturgia luterana, também conhecida como “Missa Alemã de Lutero”.

O século 18 nos proporciona outro ótimo exemplo de convivência entre um culto liturgicamente rico e grupos pequenos de comunhão. John Wesley, pastor anglicano, após uma dramática experiência de conversão, decidiu renovar a Igreja da Inglaterra. A estratégia usada por Wesley foi exatamente a mesma utilizada pelos pietistas alemães, a saber, a criação de pequenos grupos de comunhão.

A despeito dessa “inovação” pertinente à vivência cristã, Wesley e seus seguidores mantiveram a tradicional liturgia anglicana, bastante próxima, diga-se de passagem, da católica-romana. A própria Igreja Metodista, originária desse movimento, também manteve elevados padrões litúrgicos.

Os exemplos acima provam que podemos manter nossa riqueza litúrgica e, ao mesmo tempo, enveredarmos pelo fascinante modelo celular de igreja.


*Reverendo André Tadeu de Oliveira é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil em Belém, PA; jornalista e amigo pessoal do autor do site.

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