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Igreja em célula

A Igreja em células e sua relevância para o cristianismo moderno. Uma releitura do modelo eclesiológico de Emil Brunner.

Por André Tadeu Oliveira*

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Estou lendo o Volume 3, Tomo I, da clássica obra “ Dogmática”, do teólogo reformado suíço Emil Brunner. Junto com Barth, Brunner foi um dos maiores expoentes da neo-ortodoxia protestante. O subtítulo do tomo é: “Doutrina Cristã da Igreja”.

No capítulo 7, Brunner expõe os motivos responsáveis pela atual crise vivenciada pela igreja europeia. Obviamente não podemos transportar, de forma acrítica, uma realidade tão distante de nosso contexto brasileiro. Porém, penso que as causas apontadas já são sentidas no cristianismo brasileiro, principalmente nas grandes metrópoles secularizadas. No citado capítulo, o teólogo enumera quatro características presentes na igreja do velho continente. Tais características mostraram-se absolutamente nocivas para a relevância do cristianismo na Europa Ocidental. Gostaria de citá-las, contrapondo o modelo de “igrejas em células” como corretivo saudável diante de tamanha problemática.

I-A concepção de igreja como entidade exclusivamente focada em eventos.

Vejamos como Brunner trata esta questão: “– É parte da enfermidade de nossa igreja que ela ainda entende a si mesma apenas como assembleia para o culto divino aos domingos pela manhã, enquanto que na igreja do cristianismo primitivo era dada por certo que a vida diária era vivida sob a Palavra de Deus”.

A situação exposta por Brunner também é recorrente na igreja brasileira. Nossas comunidades eclesiásticas ocupam suas agendas com atividades improdutivas durante todos os dias da semana, sendo o ápice a celebração dominical. Buscando diferenciar a programação, determinados eventos especiais são oferecidos à clientela, isto é, a membresia e eventuais visitantes.

Em grandes cidades, marcadas pela sensação de anonimato e distanciamento entre as pessoas, essa antiga estratégia torna-se improdutiva. As pessoas desejam contato, amizade, proximidade e calor humano.

Diante de necessidades tão urgentes, podemos afirmar que o modelo de igreja em células é o mais apropriado. Sem abandonar a celebração litúrgica dominical, a vivência diária “sob a Palavra de Deus”, conforme Brunner, ocorre em pequenos grupos que se reúnem para orar, meditar e, principalmente, consolidar laços de amizades e comunhão. Assim, nos deparamos com a chamada “igreja de duas asas”, onde itens importantíssimos, como: liturgia, símbolos religiosos, instituição, tradição e afins são preservados, concedendo espaço, porém, para uma vivência comunitária cristã fora dos muros eclesiásticos.

II-Clericalismo castrador

Recorremos a Brunner : “- Por outro lado, o ofício ministerial é o elemento que mais impede a criação da verdadeira comunidade ou irmandade. É este caráter sobretudo oficial da igreja a razão porque o elemento comunidade fraternal está tão ausente da igreja institucional. O que é feito para igreja é feito pelo clérigo oficial, o ministro, o sacerdote. O que há para o leigo fazer? Assim a comunidade está sempre em perigo de cair nas mãos do clero oficial. Nós precisamos alcançar uma concepção do ofício do clero como serviço, que pode ser exercido de tal modo que o todo da congregação seja atraído a partilhar responsabilidades e participar do trabalho de acordo com seus dons e potenciais.”

Não nego a importância do(a) teólogo(a) diplomado(a), tampouco do(a) ministro(a). Afinal, sou teólogo e pastor! Contudo, a célebre doutrina luterana que conclama o sacerdócio de todos os crentes deve sair do papel!

Não obstante, o atual modelo eclesiástico concentra todos os serviços nas mãos do(a) ministro(a), de seu conselho ou entre um grupo seleto de “ membros iluminados”, integrantes de uma suposta elite onipresente em todos os departamentos da igreja. Essa estrutura, além de sobrecarregar as personagens citadas acima, cria uma situação de apatia entre a grande massa que compõe a igreja.

No modelo eclesiástico celular esse problema é corrigido (não solucionado!), pois o pequeno grupo propicia a participação ampla de seus integrantes. A pessoa que, por exemplo, “trava” só de pensar em falar diante de uma assembleia com mais de 30 pessoas, pode se expressar tranquilamente diante de 10 ou 12 amigos rotineiros. Não bastando, outras tarefas fundamentais para a boa realização da missão encontram-se contempladas em uma célula, a saber: discipulado pessoal, visitação, compartilhamento da palavra, oração, diaconia e ação social, diversão e sociabilidade e etc…

III-Pregação desvinculada da realidade.

Vejamos o que Brunner fala sobre a questão: “- Quando nós questionamos por que os outros anulam a pregação, mesmo do tipo mais vital, como desinteressante e mesmo inteligível, a resposta é;- A Pregação nada diz para mim. Assim eles desejam expressar o fato que este procedimento que nós chamamos de pregação não tem, na medida em que eles podem ver, relevância para sua existência. Porque não chega em suas casas, eles também não estão aptos a entendê-la.”

Além da proliferação de prédicas abordando temas desinteressantes, Brunner aborda um ponto interessantíssimo. A boa pregação não deve apenas tocar no coração humano, mas deve criar condições para uma vivência comunitária saudável. Passemosa palavra para o teólogo calvinista suíço; “- A palavra que testemunha a respeito de Jesus como o Cristo é a palavra do amor de Deus revelado em Jesus Cristo. É ao mesmo tempo a palavra na qual o homem encontra seu verdadeiro eu, e na qual a verdadeira comunidade, a irmandade, tem seu fundamento. Essa Palavra é uma palavra falada a partir da comunidade e cria comunidade. Pela fé o homem chega do isolamento, da ausência da comunidade, para si mesmo, e precisamente em assim fazendo cria a comunidade.”

Na célula não há pregação, de acordo com as normas tradicionais vigentes nas celebrações litúrgicas. Um determinado tema é introduzindo pelo líder, sendo que a participação de todos os integrantes é algo absolutamente normal e corriqueiro. Por que a participação de todos é algo quase unânime? Pelo simples fato do tema escolhido ser algo pertinente ao dia a dia das pessoas. Vivenciamos, então, uma espécie de prédica coloquial e partilhada, onde as inúmeras opiniões, devidamente mediadas por um líder preparado, enriquecem os demais participantes submersos nas mais diferentes situações.

Diante desse estilo de partilhado de palavra, a comunidade, ao mesmo tempo em que se revela, recria-se, por meio de laços criados durante a troca de opiniões. Penso que a igreja em células está muito próxima do conceito de Brunner sobre a pregação.

Conclusão

Não foi minha intenção escrever algo pesado sobre a teologia dialética e o movimento igreja em células. Apenas desejei compartilhar algumas ideias, visando demonstrar que a dita “teologia acadêmica” pode, e muito, auxiliar movimentos práticos voltados para a renovação da igreja, caso do movimento igreja em células.

Fonte : Dogmática- Volume III- Tomo I- “ Doutrina Cristã da Igreja”- Emil Brunner- Fonte Editorial

*Reverendo André Tadeu de Oliveira é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil em Belém, PA; jornalista e amigo pessoal do autor do site.

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